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Ciência

O plano para conter búfalos que ameaçam a Amazônia

Em uma das regiões mais isoladas da Amazônia brasileira, um experimento inédito promete decidir o futuro de milhares de animais — e de espécies nativas ameaçadas. O abate controlado de búfalos invasores vai sair do papel como parte de uma pesquisa piloto que tenta responder a uma pergunta incômoda: até onde é possível proteger a biodiversidade quando uma espécie exótica foge totalmente do controle?
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Tempo de leitura: 3 minutos

Por que os búfalos viraram um problema ambiental

Os búfalos não são nativos do Brasil. Eles chegaram a Rondônia em 1953, trazidos como parte de um projeto governamental para produção de carne e leite. O plano fracassou, os animais foram abandonados e passaram décadas se reproduzindo livremente dentro de áreas protegidas.

Hoje, mais de 5 mil búfalos selvagens vivem entre a Reserva Biológica do Guaporé, a Reserva Extrativista Pedras Negras e a Reserva de Fauna Pau D’Óleo — uma região única onde se encontram Amazônia, Cerrado e Pantanal.

Sem predadores naturais, os búfalos se multiplicaram rápido demais. O resultado é um impacto ambiental considerado grave e contínuo.

O teste que prevê o abate de 500 animais

O plano para conter búfalos que ameaçam a Amazônia
© https://x.com/infovegbr

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) vai iniciar uma pesquisa piloto com o abate de cerca de 500 búfalos, o equivalente a 10% do rebanho atual.

A ideia não é simplesmente eliminar animais, mas avaliar cientificamente o que acontece depois: impactos na água, no solo e na fauna local. A operação envolve três frentes principais:

  • o ICMBio, responsável pela logística e gestão da área;
  • a Universidade Federal de Rondônia, que vai analisar a sanidade dos animais abatidos;
  • uma empresa especializada, que se voluntariou para realizar o abate.

Segundo o instituto, a região é tão remota que não existe logística viável para remoção dos animais vivos ou aproveitamento da carne. Além disso, como os búfalos cresceram sem controle sanitário, o consumo não é permitido.

O que os pesquisadores querem descobrir

Desde o início de 2025, equipes já coletam amostras de água antes do abate. Depois, o monitoramento continua para responder questões centrais:

  • A fauna nativa se aproxima das carcaças?
  • Alguma espécie se beneficia desse material orgânico?
  • Existe risco de contaminação ou morte de animais nativos?

Cerca de 15% das carcaças terão amostras coletadas para análise em laboratório. Além disso, câmeras de monitoramento serão instaladas para observar o comportamento da fauna ao redor.

“Ou a gente protege as espécies nativas ameaçadas ou aceita que a espécie exótica domine completamente o ambiente”, resume o analista ambiental Wilhan Cândido, do ICMBio.

Destruição silenciosa: solo, água e vegetação

Os danos causados pelos búfalos vão muito além do pisoteio. Animais que podem pesar mais de meia tonelada, eles compactam o solo, destroem mudas e criam trilhas profundas que funcionam como canais artificiais, desviando a água do seu curso natural.

Isso afeta diretamente áreas alagadas, fundamentais para a biodiversidade local. Em alguns pontos, o solo cedeu quase um metro, deixando raízes expostas e matando árvores inteiras.

Um dos símbolos dessa degradação são os buritizais. Adaptados a ambientes úmidos, os buritis perderam a capacidade de reter água. O resultado foi devastador: em 2024, a área registrou o primeiro incêndio intenso da história, forte o suficiente para queimar até o solo.

Sem retirar o principal fator de impacto, os pesquisadores estimam que a recuperação completa pode nunca acontecer.

Espécies ameaçadas e efeito colateral da caça

Entre os animais mais prejudicados está o cervo-do-pantanal, classificado como vulnerável à extinção. Monitoramentos com drones não encontraram registros de convivência entre cervos e búfalos — um sinal claro de expulsão do habitat.

Há ainda um efeito colateral grave: a presença dos búfalos atrai caçadores ilegais. Operações de fiscalização encontraram pessoas que diziam caçar búfalos, mas carregavam também cervos, jacarés e tatus.

Ação judicial e pressão por resultados

Enquanto a pesquisa avança, corre em paralelo uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal (MPF). O órgão alerta que, sem intervenção, a população pode chegar a 50 mil búfalos em cinco anos.

A Justiça determinou que ICMBio e Estado de Rondônia apresentem, em até três meses, um plano completo de controle e erradicação, com metodologia científica, cronograma, custos e avaliação de riscos. O MPF também pede R$ 20 milhões em indenização por danos ambientais coletivos.

Um dilema ambiental sem respostas fáceis

O abate de búfalos na Amazônia escancara um dilema real: quando uma espécie invasora ameaça destruir ecossistemas inteiros, não agir também é uma escolha — e uma escolha com consequências.

Os resultados da pesquisa piloto devem orientar decisões futuras e servir de base técnica para a Justiça. Até lá, a floresta segue esperando por uma resposta que equilibre ciência, conservação e responsabilidade ambiental.

[Fonte: G1 – Globo]

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