Um relatório entregue à promotoria de Milão provocou a abertura de uma investigação sobre a participação de estrangeiros, incluindo italianos, em assassinatos de civis durante o cerco de Sarajevo, entre 1992 e 1996. A denúncia aponta que viajantes pagavam militares do exército sérvio-bósnio para atirar contra moradores da capital da Bósnia e Herzegovina. A revelação reacende memórias de um dos episódios mais sombrios da Guerra Civil da ex-Iugoslávia.
Acusações de “turismo de atiradores” durante a guerra
🇮🇹 💥 Ministério Público da Itália abre investigações com base em relatos de que cidadãos italianos teriam pago para viajar à Sarajevo e atirar contra civis e crianças “por diversão” durante o cerco à cidade, ocorrido entre 1992 e 1996, durante a Guerra da Bósnia. pic.twitter.com/NQfvhW86ff
— République (@republiqueBRA) November 12, 2025
A alegação central é que estrangeiros viajavam às colinas que cercam Sarajevo e, mediante pagamento, recebiam autorização informal de militares para disparar contra civis indefesos. O escritor italiano Ezio Gavazzeni, autor da denúncia, afirma ter reunido documentos, testemunhos e indícios que sugerem a existência de um circuito de “turismo de guerra”, em que pessoas buscavam a experiência macabra de matar à distância.
Segundo Gavazzeni, o esquema ocorria em plena guerra, quando Sarajevo enfrentava o cerco mais longo da história moderna. Durante quatro anos, mais de dez mil pessoas morreram em bombardeios e ataques de franco-atiradores que controlavam pontos estratégicos da cidade.
Entre os atiradores estariam italianos, franceses, alemães e ingleses que, conforme a denúncia, buscavam “diversão e satisfação pessoal”. Os pagamentos eram feitos a integrantes do exército de Radovan Karadžić, líder sérvio-bósnio posteriormente condenado por genocídio e crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia.
O testemunho que inspirou a investigação
A investigação conduzida por Gavazzeni começou após ele assistir ao documentário Sarajevo Safari (2022), dirigido pelo esloveno Miran Zupanič. No filme, um ex-soldado sérvio e um empreiteiro relatam que grupos de ocidentais eram levados às áreas de tiro para atirar contra moradores como se fosse uma “experiência turística”.
Veteranos sérvios negam a prática, mas o relato motivou o escritor a aprofundar a apuração. Ele afirma ter localizado alguns dos supostos participantes italianos, que devem ser interrogados pelos promotores nas próximas semanas.
O advogado Nicola Brigida, que apoia a iniciativa judicial, afirma que “as evidências coletadas após uma longa investigação são bem fundamentadas e podem levar a uma apuração séria capaz de identificar os responsáveis”.
Sniper Alley: o símbolo do terror cotidiano
Um dos locais mais mencionados nas denúncias é a Avenida Meša Selimović, conhecida como Sniper Alley (“Beco do Atirador”). O trecho ligava o centro ao aeroporto de Sarajevo e se tornou um dos lugares mais perigosos do cerco. Atravessar a via era uma roleta-russa: civis eram atingidos aleatoriamente, e nem ônibus ou bondes escapavam dos tiros.
Havia relatos de que até crianças eram baleadas sem qualquer motivo — uma brutalidade que se fixou como símbolo da desumanização da guerra.
Histórias que marcaram a memória do cerco
Entre as vítimas mais lembradas estão Boško Brkić e Admira Ismić, o casal bósnio apelidado de “Romeu e Julieta de Sarajevo”. Eles foram mortos em 1993 enquanto tentavam atravessar uma ponte para fugir da cidade. O registro audiovisual dos corpos caídos lado a lado ganhou o mundo e se tornou uma das imagens mais emblemáticas do conflito.
A nova investigação reacende essas memórias e reforça a necessidade de esclarecer crimes que, décadas depois, permanecem envoltos em silêncio e impunidade.
Próximos passos da investigação
Com a denúncia formalizada, promotores de Milão avaliarão depoimentos, documentos e possíveis conexões entre cidadãos italianos e militares sérvio-bósnios. Se comprovada a participação de estrangeiros nos assassinatos, o caso pode resultar em acusações formais por crimes de guerra, um processo raro envolvendo civis de países ocidentais.
Para Gavazzeni, o objetivo não é apenas responsabilizar os culpados, mas revelar o que descreve como uma “indiferença ao mal” que permitiu a banalização da violência durante o cerco.
A expectativa é que a investigação avance ao longo dos próximos meses, trazendo à luz um capítulo ainda pouco explorado da guerra da Bósnia — um capítulo que, segundo seus denunciantes, não pode permanecer esquecido.
[ Fonte: CNN Brasil ]