Em tempos de redes sociais, relatos pessoais podem rapidamente virar tendências globais — mesmo quando envolvem temas sensíveis como saúde íntima. Um vídeo recente levantou uma pergunta que parece simples, mas carrega implicações profundas: é possível “retirar” a menstruação? A resposta não é tão direta quanto o TikTok fez parecer, e os riscos por trás dessa ideia vão muito além do desconforto mensal.
O vídeo que transformou um exame em polêmica

Um relato publicado no TikTok chamou atenção ao descrever uma situação inusitada durante um exame ginecológico de rotina. No vídeo, que posteriormente foi removido da plataforma, uma mulher afirmou que uma ginecologista teria se oferecido para “retirar” a menstruação dela durante a realização do exame de papanicolau.
Segundo a criadora do conteúdo, a médica teria usado a expressão “tirar à colher”, tradução literal de um termo em inglês. Em tom de espanto, a mulher comparou a cena a alguém retirando sorvete de um pote. A história rapidamente se espalhou, acumulando quase 4 milhões de visualizações e gerando uma enxurrada de comentários.
A repercussão dividiu opiniões. Enquanto alguns usuários encararam o relato com humor ou curiosidade, profissionais da saúde reagiram com preocupação. A principal questão era entender que tipo de procedimento poderia estar por trás da descrição — e se ele fazia sentido do ponto de vista médico.
O vídeo, apesar de não estar mais disponível, abriu espaço para um debate importante: até onde vai a influência das redes sociais na forma como as pessoas encaram procedimentos médicos?
O que pode estar por trás da “remoção” da menstruação
Segundo especialistas, o que foi descrito no vídeo pode se assemelhar a uma curetagem uterina. Trata-se de um procedimento que remove o endométrio, a camada interna do útero responsável pelo sangramento menstrual.
A curetagem é indicada em situações específicas, como após abortos incompletos ou para controlar sangramentos intensos. Não é, porém, um método estético ou uma solução para “evitar a bagunça” da menstruação.
De acordo com a ginecologista Helga Marquesini, do Hospital Sírio-Libanês, o procedimento é mais invasivo, doloroso e geralmente realizado sob sedação. Ele não faz parte de exames ginecológicos de rotina e envolve riscos importantes.
Em condições normais, o volume de sangue perdido durante a menstruação varia entre 30 ml e 40 ml, podendo chegar a 80 ml em casos mais intensos. Esse processo é fisiológico, faz parte do funcionamento natural do corpo e não deve ser tratado como algo a ser “corrigido”.
Mesmo quando a curetagem reduz o sangramento, ela não elimina completamente a menstruação. Pequenos sangramentos continuam ocorrendo, e o corpo pode apresentar alterações no ciclo.
Os riscos que quase ninguém menciona
Ao contrário do que algumas postagens sugerem, intervenções no útero não são isentas de consequências. A curetagem pode provocar menstruações irregulares, dificultar a fertilidade e, em casos mais graves, causar a síndrome de Asherman.
Essa condição ocorre quando tecidos cicatriciais se formam dentro do útero, podendo levar à infertilidade, dores pélvicas e ausência de menstruação. Em alguns casos, os danos podem ser permanentes.
Além disso, há riscos associados a infecções, perfurações uterinas e complicações anestésicas. Por isso, o procedimento só é recomendado quando há uma indicação clínica clara.
A ideia de realizar algo assim apenas para “evitar o incômodo mensal” não tem respaldo médico. A menstruação é um processo natural do corpo de pessoas que menstruam, e interferir nele sem necessidade pode trazer mais prejuízos do que benefícios.
Existem alternativas mais seguras?
Para quem sofre com fluxo intenso, cólicas fortes ou desconforto significativo, existem alternativas menos invasivas. Alguns medicamentos hormonais ajudam a regular o ciclo, reduzir o volume do sangramento e aliviar as dores.
No entanto, mesmo esses tratamentos devem ser prescritos por um especialista, após avaliação clínica. Cada corpo responde de forma diferente, e o uso inadequado de hormônios também pode gerar efeitos colaterais.
O ponto central é que soluções rápidas, sugeridas em vídeos virais, raramente mostram o quadro completo. A saúde íntima exige acompanhamento médico, informação de qualidade e decisões baseadas em evidências — não em tendências.
Quando a internet simplifica o que é complexo
O sucesso desse tipo de conteúdo revela um problema maior: a forma como temas médicos são simplificados nas redes sociais. Um relato pessoal, fora de contexto, pode criar a impressão de que procedimentos complexos são simples, rápidos e inofensivos.
Na prática, o corpo humano não funciona como um botão de “ligar e desligar”. Cada intervenção tem consequências, e a menstruação, por mais incômoda que possa ser, é parte de um equilíbrio fisiológico importante.
Antes de considerar qualquer procedimento, o caminho mais seguro continua sendo o mesmo: buscar orientação médica, fazer perguntas e entender os riscos reais.
Porque quando o assunto é saúde, nem tudo o que viraliza merece ser imitado.
[Fonte: Correio Braziliense]