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Ciência

O que realmente acontece no seu cérebro quando você assiste a filmes de terror?

Sentar no sofá, apagar as luzes e assistir a um filme assustador parece só diversão. Mas por trás dos gritos, jumpscares e sustos, seu cérebro ativa mecanismos poderosos ligados ao medo, ao prazer e ao aprendizado emocional. É por isso que, mesmo sentindo pavor, continuamos escolhendo esse gênero.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O cinema de terror sempre ocupou um lugar especial na cultura popular: provoca arrepios, acelera o coração e, ainda assim, nos atrai repetidamente. Embora pareça apenas entretenimento, o medo controlado desperta reações profundas no cérebro. Especialistas afirmam que esses filmes funcionam como uma espécie de “treinamento emocional” que nos ajuda a lidar com ansiedade e situações difíceis do mundo real. Mas como isso funciona? E por que buscamos sentir medo voluntariamente?

O medo que é seguro – e irresistível

A sensação provocada por um filme de terror pode ser comparada a uma montanha-russa. O psiquiatra e neurologista alemão Borwin Bandelow explica que, mesmo sabendo que estamos em segurança, nosso cérebro reage como se o perigo fosse real.

Quando o susto aparece na tela, o corpo libera hormônios ligados ao medo, preparando uma reação de alerta. Logo depois, entram em cena as endorfinas, responsáveis pela sensação de euforia e alívio. É esse contraste entre tensão e prazer que torna o terror tão viciante.

Segundo Bandelow, nosso cérebro pode saber que nada está nos ameaçando, mas o corpo reage instintivamente, criando uma mistura de medo e excitação que muitos espectadores procuram de novo e de novo.

Terror: um treino psicológico

O diretor norte-americano Wes Craven, criador de “A Hora do Pesadelo”, dizia que o terror é um “campo de treinamento para a psique”. A ideia é simples: as narrativas transformam medos reais em experiências controladas.

Na vida cotidiana, estamos sujeitos a perigos imprevisíveis. Já no filme, os monstros, assassinos ou criaturas sobrenaturais seguem regras. Sabemos quando o perigo começa e quando termina. Isso nos permite pensar racionalmente sobre o medo, em vez de apenas senti-lo.

Por isso, o terror pode servir como uma forma de processamento psicológico: sentimos medo, mas aprendemos a lidar com ele em um contexto seguro.

O laboratório que estuda o susto

Desde 2020, o Laboratório de Medo Recreativo da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, investiga por que buscamos experiências assustadoras de forma voluntária. Os pesquisadores descobriram que o medo recreativo — quando controlado — pode melhorar nossa capacidade de enfrentar estresse e fortalecer o equilíbrio emocional.

Os psicólogos Mathias Clasen e Marc Malmdorf Scrivner identificaram três perfis principais de fãs do terror:

  • Os viciados em adrenalina, que procuram emoção intensa.

  • Os viciados em medo, que gostam da sensação de ser assustados.

  • Os que enfrentam a escuridão, usando o terror para processar angústias internas.

Clasen afirma que o público não é passivo: os espectadores ajustam o nível de medo para alcançar um “ponto ideal”, onde o susto é prazeroso e não paralisante. Se o terror passa do limite, o prazer desaparece — por isso muitos eventos oferecem até “áreas livres de monstros” para quem precisa respirar.

A dose certa de susto

Para que o terror funcione como aprendizado emocional, a exposição precisa ser moderada. Quando a experiência é equilibrada, o medo pode ajudar a fortalecer a mente. Mas quando é excessivo, deixa de ensinar e passa apenas a provocar sofrimento.

A ciência ainda está descobrindo todos os efeitos do terror controlado. Porém, uma coisa é clara: o susto continua sendo uma das formas mais intrigantes — e humanas — de enfrentar o medo.

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