Em 2021, a China determinou o fim total das atividades ligadas às criptomoedas. A decisão parecia definitiva: comércio proibido, mineração desativada e plataformas fechadas. O objetivo era claro — proteger o sistema financeiro, conter a fuga de capitais e impedir que uma economia paralela se consolidasse fora do controle estatal. Mas, quatro anos depois, sinais inesperados obrigam o governo a reforçar novamente sua ofensiva.
Um novo mecanismo de vigilância entra em ação
Diante do crescimento recente de operações informais, o Banco Popular da China convocou uma reunião de alto nível com autoridades judiciais, reguladores financeiros e agências tecnológicas. Todos integram um novo modelo de coordenação interinstitucional voltado à supervisão de atividades digitais consideradas de risco.
O arcabouço legal ainda é o mesmo de 2021, quando as criptomoedas foram classificadas como “atividade financeira ilegal”. Exchanges foram fechadas, stablecoins passaram a ser tratadas como ameaça e qualquer tipo de intermediação foi banida. O que mudou agora é o grau de urgência. Segundo o próprio banco central, a movimentação clandestina voltou a crescer em volume suficiente para acionar os sistemas de alerta.
As autoridades reforçaram que ativos digitais não têm curso legal no país e que o anonimato das transações amplia riscos de fraude, lavagem de dinheiro e evasão de recursos.
A mineração volta ao radar — e reacende o alerta máximo
O dado mais sensível desse novo momento não está tanto no comércio ilegal, mas na mineração. Mesmo proibida há quatro anos, a atividade voltou a aparecer em medições internacionais. O poder computacional originado em território chinês cresceu lentamente, indicando que antigas estruturas podem ter migrado para áreas menos visíveis da fiscalização.
A mineração não depende de vendas diretas, mas gera rendimentos em Bitcoin que podem circular por rotas difíceis de rastrear. Esse ponto é particularmente crítico para o governo: fluxos financeiros digitais cruzando fronteiras sem passar por bancos ou sistemas tradicionais de controle.
Essa contradição — proibição formal e atividade real em ascensão — é o principal motivo do novo endurecimento regulatório.

Um modelo que não admite flexibilização
O governo deixou claro que não há qualquer sinal de abertura. O posicionamento segue alinhado à visão de estabilidade financeira defendida pela liderança chinesa, que enxerga as criptomoedas como uma ameaça estrutural ao controle da moeda e da política monetária.
Mesmo assim, a demanda por ativos digitais persiste, e a mineração demonstrou capacidade de sobrevivência mesmo após operações massivas de fechamento em 2021. Trata-se de um choque direto entre um modelo de controle absoluto e uma tecnologia desenhada justamente para escapar desse controle.
Vigilância reforçada, mas futuro em aberto
A China volta a enfrentar um adversário que nunca desapareceu completamente. O Estado amplia a vigilância, aperta a fiscalização e tenta fechar as brechas que permitiram o retorno da atividade. Mas o próprio funcionamento descentralizado do ecossistema cripto continua gerando mais perguntas do que respostas.
A grande ncógnita agora é se a nova ofensiva será suficiente para conter esse ressurgimento — ou se, mais uma vez, o sistema encontrará caminhos alternativos para sobreviver à pressão regulatória.