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Ciência

O sinal que começa a preocupar os cardiologistas: o que o olfato pode revelar sobre o coração

Pesquisas recentes sugerem que mudanças sutis em um dos sentidos mais negligenciados — o olfato — podem antecipar vulnerabilidades cardiovasculares antes mesmo dos primeiros sintomas. Embora não seja motivo de alarme imediato, os especialistas acreditam que essa descoberta pode transformar a forma como avaliamos o envelhecimento e a saúde do coração.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Os sentidos refletem muito mais do que simples percepções: eles revelam o estado silencioso do corpo.
Estudos internacionais começam a apontar uma relação entre a perda de olfato e o aumento do risco de doenças cardíacas em adultos mais velhos.
Embora ainda preliminares, as evidências indicam que o nariz pode se tornar um poderoso “termômetro” da saúde cardiovascular, oferecendo um novo caminho para detectar fragilidades antes que surjam os sinais clássicos.

Quando o olfato enfraquece e o corpo tenta avisar

O interesse científico pela conexão entre os sentidos e o coração cresce rapidamente.
Pesquisadores descobriram que a redução da capacidade de cheirar — algo comum com a idade — pode estar associada a um risco quase duas vezes maior de desenvolver doenças cardíacas nos anos seguintes.

O estudo conduzido pela Universidade Johns Hopkins, com mais de 5.000 participantes acima dos 70 anos, utilizou o teste “Sniffin’ Sticks”, que avalia a habilidade de identificar aromas como café, limão ou fumaça.
Os resultados mostraram que quem apresentava olfato fraco tinha maior probabilidade de desenvolver insuficiência cardíaca, AVC e até maior mortalidade geral.

Segundo o cardiologista Neil Shah, isso pode estar ligado ao fluxo sanguíneo: “para que os sentidos funcionem bem, é preciso uma irrigação adequada — assim como nas artérias do coração”. Ou seja, o nariz pode refletir alterações vasculares mais amplas.

Um indicador precoce, não uma causa direta

O otorrinolaringologista Nicholas Rowan reforça que o olfato não causa problemas cardíacos, mas pode ser um sinal precoce de envelhecimento biológico acelerado.
Em outro estudo, o epidemiologista Honglei Chen observou que pessoas com olfato debilitado apresentavam 30% mais risco de insuficiência cardíaca congestiva, ainda que sem relação direta com infartos ou AVCs.

Além dos aspectos vasculares, a perda de olfato pode reduzir o prazer de comer, afetar a nutrição e o humor — fatores que, somados, impactam a saúde do coração e a capacidade de lidar com o estresse físico.

Falência Cardíaca1
© Pavel Danilyuk

Como interpretar sem entrar em pânico

Especialistas alertam que a perda de olfato não é inevitável com o envelhecimento, nem motivo para medo imediato.
Uma alteração súbita ou persistente deve ser avaliada por um médico, pois pode indicar desde infecções até doenças neurodegenerativas.

Rowan defende que testes simples de olfato podem ser incorporados aos check-ups de rotina, especialmente em idosos. Apesar de baratos e fáceis, quase nunca são usados fora de clínicas especializadas.

A cardiologista Khadijah Breathett, da Associação Americana do Coração, ressalta que “a perda sensorial pode ser um biomarcador útil, mas não uma causa direta de falência cardíaca”.
Para ela, o objetivo é integrar o olfato em modelos mais amplos de previsão de risco.

O que os médicos recomendam

A pesquisadora Keran Chamberlin sugere que adultos mais velhos prestem atenção a mudanças inexplicáveis no olfato e procurem acompanhamento médico sem alarde.
Já Shah enfatiza: “não queremos que jovens acreditem que estão à beira de um infarto só porque sentiram menos cheiro de café pela manhã”.

Em suma, o nariz pode ser uma nova janela para o coração — um lembrete de que o corpo fala, até mesmo pelo que deixamos de sentir.

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