Um videogame pode ajudar a lidar com traumas?
O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) afeta milhões de pessoas que passaram por experiências marcantes e perturbadoras. Os sintomas incluem ansiedade, insônia e memórias intrusivas, tornando o dia a dia extremamente desafiador. Buscando soluções inovadoras, cientistas exploram o potencial terapêutico de um jogo clássico e amplamente conhecido.
O estudo que revelou um efeito inesperado
Em 2009, pesquisadores realizaram um experimento com 40 participantes que assistiram a um vídeo de conteúdo chocante, simulando uma experiência traumática. Depois disso, metade dos voluntários jogou um videogame por 10 minutos, enquanto o outro grupo permaneceu inativo. Durante a semana seguinte, os participantes registraram quantas vezes tiveram lembranças intrusivas do vídeo.
Os resultados foram surpreendentes: aqueles que jogaram tiveram menos da metade das lembranças incômodas em comparação ao grupo que não jogou. Isso levou os cientistas a considerar que certas atividades poderiam interferir na forma como nosso cérebro processa e fixa memórias traumáticas.
Por que este jogo em particular?
O jogo em questão é Tetris, um clássico dos anos 80 que desafia os jogadores a encaixar blocos coloridos de forma estratégica. Mas como ele pode ajudar a reduzir os efeitos do TEPT?
Pesquisadores sugerem que a atividade visoespacial exigida pelo jogo pode interromper a consolidação das memórias traumáticas no cérebro. Nos momentos imediatamente após um trauma, o cérebro trabalha para processar e armazenar essas informações. Jogar Tetris pode, teoricamente, “competir” por essa atenção, reduzindo a intensidade das lembranças intrusivas.
O papel das atividades visoespaciais
O efeito positivo observado pode não ser exclusivo do Tetris, mas sim de qualquer atividade que envolva raciocínio visoespacial. Estudos sugerem que quebra-cabeças, desenho e outras atividades similares também podem ter impactos benéficos no processamento de memórias traumáticas. O ponto crucial parece ser a capacidade de desviar a atenção do trauma para uma tarefa cognitiva envolvente.
O psicoterapeuta Federico Sciretta destaca que esses jogos podem ser aliados para aliviar temporariamente os sintomas do TEPT, mas não substituem um tratamento profissional. “Eles oferecem um alívio momentâneo, mas a terapia e, em alguns casos, a medicação são fundamentais para um tratamento completo”, explica.
Ceticismo entre especialistas
Nem todos os profissionais de saúde mental estão convencidos do impacto terapêutico do Tetris. O Dr. Alberto Trimboli, presidente honorário da Associação Argentina de Saúde Mental (AASM), alerta que jogos podem servir como uma distração temporária, mas também podem estimular mecanismos de fuga, dificultando o enfrentamento real do trauma. Ele enfatiza que a terapia psicológica estruturada ainda é a abordagem mais eficaz.
O futuro das pesquisas
Apesar do ceticismo, o estudo abre caminho para novas pesquisas sobre o uso de jogos como ferramenta complementar no tratamento do TEPT. Os cientistas seguem investigando se a interferência na consolidação de memórias pode ser aplicada a outros distúrbios, como ansiedade e depressão.
Embora o Tetris possa oferecer um efeito positivo na redução de lembranças intrusivas, especialistas reforçam que ele não substitui um tratamento profissional. A psicoterapia continua sendo essencial para lidar com o TEPT. No entanto, esses achados mostram que, no futuro, a interação entre jogos e terapia pode se tornar uma estratégia valiosa na saúde mental.