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Ciência

O telescópio James Webb acaba de observar algo inédito: uma supernova que explodiu quando o universo ainda era um bebê — e ela não se parece em nada com o que os astrônomos esperavam

Uma explosão estelar detectada quando o universo tinha apenas 730 milhões de anos pode ser a supernova mais antiga já observada. Captada pelo telescópio James Webb após um raro surto de raios gama, ela desafia teorias consolidadas ao mostrar características surpreendentemente semelhantes às supernovas modernas.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Desde que entrou em operação, o Telescópio Espacial James Webb vem empurrando os limites do que conseguimos observar no cosmos. Agora, ele pode ter ido ainda mais longe: identificar uma supernova que explodiu quando o universo tinha apenas 5% da idade atual. O achado oferece uma janela inédita para as primeiras gerações de estrelas — e sugere que o universo primitivo talvez fosse menos exótico do que imaginávamos.

Um clarão raro vindo do início do cosmos

Exotic Stelar Cosmos Universo
©
Westerlund 1 – Wikipedia

A descoberta foi feita pelo Telescópio Espacial James Webb, que identificou o que pode ser a supernova mais distante e antiga já registrada. A explosão ocorreu quando o universo tinha cerca de 730 milhões de anos, numa época em que as primeiras galáxias ainda estavam se formando.

Os resultados foram publicados na revista Astronomy & Astrophysics Letters e representam um marco para a astronomia observacional, ao permitir o estudo direto da morte de uma estrela em um período extremamente remoto da história cósmica.

A caçada começou com um lampejo de raios gama

Tudo teve início em março de 2025, quando o satélite SVOM detectou um breve, porém intenso, estalo de raios gama batizado de GRB 250314A. Esses eventos estão entre os mais energéticos do universo e costumam indicar o colapso de estrelas massivas.

O sinal durou cerca de dez segundos — tempo compatível com explosões associadas à morte de estrelas gigantes. O alerta disparou uma resposta global quase imediata.

Uma resposta coordenada em tempo recorde

Supernova
© Keck Observatory/Adam Makarenko

Em menos de 90 minutos, o Observatório Neil Gehrels Swift localizou a origem do evento. Horas depois, o Telescópio Óptico Nórdico, nas Ilhas Canárias, detectou o brilho residual no infravermelho — um forte indício de que o objeto estava extremamente distante.

A confirmação veio com o Very Large Telescope, no Chile, que mediu o desvio para o vermelho do sinal. O valor indicava que a luz havia viajado por mais de 13 bilhões de anos antes de chegar até nós.

“Em cinco décadas, detectamos apenas alguns poucos surtos de raios gama nos primeiros bilhões de anos do universo”, explicou Andrew Levan, autor principal do estudo. “Este evento é extremamente raro — e empolgante.”

O papel decisivo do James Webb

Detectar o raio gama era apenas o começo. A grande dúvida era saber se ele estava, de fato, associado a uma supernova. Por causa da expansão do universo, a luz dessa explosão antiga se estica, fazendo o brilho evoluir mais lentamente do nosso ponto de vista.

Enquanto uma supernova atual atinge o pico em poucas semanas, os astrônomos estimaram que essa levaria cerca de três meses e meio. Em julho de 2025, o Webb apontou seus instrumentos para o local — e confirmou o que ninguém havia visto antes.

“Somente o Webb poderia mostrar diretamente que essa luz vem de uma supernova, de uma estrela massiva em colapso”, afirmou Levan. O telescópio detectou a assinatura clara da explosão e até um fraco borrão avermelhado da galáxia hospedeira.

Uma supernova antiga… mas estranhamente familiar

O aspecto mais intrigante surgiu na análise dos dados. As teorias previam que as primeiras estrelas, formadas quase só por hidrogênio e hélio, seriam muito diferentes das atuais — maiores, mais instáveis e com explosões incomuns.

Mas não foi isso que o Webb mostrou.

Ao comparar o sinal com supernovas modernas, o time encontrou semelhanças inesperadas. “Fomos sem ideias preconcebidas”, disse Nial Tanvir, coautor do estudo. “E o Webb revelou algo chocante: essa supernova se parece muito com as que observamos hoje.”

O que isso muda na nossa visão do universo primitivo

O resultado sugere que a evolução estelar no início do cosmos pode ter sido mais parecida com a atual do que se imaginava. Se estrelas tão antigas morriam de forma semelhante às modernas, alguns modelos sobre o universo primordial talvez precisem ser revistos.

Ainda serão necessárias novas observações para confirmar o cenário, mas uma coisa é clara: o James Webb não apenas está olhando mais longe no espaço — está obrigando a astronomia a repensar ideias que pareciam sólidas há décadas.

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