O Reino Unido decidiu dar um passo ousado na luta contra o tabagismo. Parlamentares aprovaram um projeto de lei que estabelece uma proibição progressiva da venda de cigarros, criando na prática uma geração livre do fumo. A medida afeta diretamente jovens que ainda nem atingiram a maioridade — e redefine a política de saúde pública no país.
Uma proibição que cresce com o tempo
A nova legislação determina que qualquer pessoa nascida a partir de 1º de janeiro de 2009 nunca poderá comprar produtos de tabaco legalmente. Hoje, a idade mínima para compra é de 18 anos, mas o modelo adotado pelo governo britânico prevê que esse limite aumente gradualmente, acompanhando o envelhecimento dessa geração.
Na prática, isso significa que um jovem que completar 18 anos nos próximos anos não terá acesso legal ao cigarro — e essa restrição será permanente ao longo da vida.
O projeto, conhecido como Tobacco and Vapes Bill, faz parte de um conjunto mais amplo de políticas públicas voltadas à redução dos impactos do tabagismo no sistema de saúde.
Um problema de saúde pública persistente
O tabagismo continua sendo a principal causa de mortes evitáveis no Reino Unido. Segundo o National Health Service, cerca de 74.600 pessoas morreram em 2019 por doenças relacionadas ao cigarro.
Globalmente, o cenário também preocupa. A World Health Organization estima que o tabaco seja responsável por mais de 7 milhões de mortes por ano — incluindo cerca de 1,6 milhão de pessoas que nunca fumaram, mas foram expostas à fumaça de terceiros.
Doenças como câncer, problemas cardiovasculares e enfermidades respiratórias estão diretamente associadas ao consumo de tabaco, o que reforça a urgência de medidas mais restritivas.
Vapes também entram na mira
Além do cigarro tradicional, a nova lei britânica amplia as restrições sobre produtos alternativos, como os cigarros eletrônicos.
O texto prevê a proibição do uso de vapes em diversos espaços públicos, incluindo carros com crianças, playgrounds, hospitais e áreas próximas a escolas. A legislação também abre caminho para que o governo regule sabores, embalagens e publicidade desses produtos — um ponto sensível, já que aromas doces e designs chamativos costumam atrair jovens.
A medida reflete uma preocupação crescente com o aumento do uso de dispositivos eletrônicos entre adolescentes, especialmente em países onde o consumo de cigarros convencionais está em queda.
“Prevenir é melhor que remediar”
Autoridades de saúde britânicas defendem que a estratégia adotada é uma forma eficaz de reduzir custos futuros e salvar vidas. O secretário de Saúde, Wes Streeting, destacou que a política tem foco preventivo.
Segundo ele, a iniciativa deve aliviar a pressão sobre o sistema de saúde e contribuir para a construção de uma população mais saudável nas próximas décadas.
Um movimento global contra o tabaco
O Reino Unido não está sozinho nessa abordagem. Outros países já começaram a adotar medidas semelhantes. A New Zealand aprovou, em 2022, uma legislação que proíbe a venda de tabaco para pessoas nascidas após 2008. Já as Maldives implementaram, em 2025, uma política equivalente para indivíduos nascidos a partir de 2007.
Nos United States, embora o número de fumantes esteja em queda — com menos de 10% dos adultos consumindo cigarros em 2024 —, o uso de produtos alternativos, como e-cigarettes, ainda é motivo de preocupação entre jovens. Desde 2019, a idade mínima para compra de tabaco no país é de 21 anos.
Uma geração sem cigarro?
A proposta britânica é ambiciosa e pode marcar uma mudança histórica na forma como governos lidam com o tabagismo. Ao invés de apenas restringir o consumo, a ideia é eliminá-lo gradualmente, começando pelas novas gerações.
Se a estratégia funcionar, o país poderá se tornar um dos primeiros do mundo a reduzir drasticamente o número de fumantes nas próximas décadas — não por proibição imediata, mas por um processo contínuo de substituição geracional.
O impacto real ainda levará anos para ser medido. Mas uma coisa já está clara: o futuro do cigarro, ao menos no Reino Unido, parece cada vez mais limitado.