Como o ranking foi feito
O estudo é resultado de uma parceria inédita entre a Agência Bori e a base internacional Overton, especializada em rastrear como pesquisas científicas influenciam documentos oficiais, relatórios técnicos e decisões de Estado.
Foram analisados mais de 33 mil documentos de políticas públicas publicados desde 2019, e só entraram na lista os pesquisadores com pelo menos 150 citações nesses materiais. A Universidade de São Paulo (USP) dominou o ranking, com 22 nomes, consolidando sua posição como maior produtora de ciência de impacto da América Latina.
O nome mais citado: Cesar Victora, referência global
O topo da lista ficou com Cesar Victora, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), reconhecido mundialmente por seus estudos sobre saúde materno-infantil e amamentação. Seus trabalhos aparecem em mais de 3 mil documentos oficiais e foram citados 331 vezes — um feito impressionante até no cenário global.
Victora é considerado um dos principais responsáveis por influenciar políticas de amamentação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Unicef, além de inspirar programas de nutrição em diversos países.
USP domina, mas há nomes de todo o país
Logo atrás aparecem pesquisadores da USP como Carlos Augusto Monteiro, especialista em nutrição e criador do conceito de “alimentos ultraprocessados”, e Paulo Saldiva, médico patologista conhecido por seus estudos sobre poluição atmosférica e seus efeitos na saúde pública.
Outros destaques incluem Carlos Nobre, climatologista da USP e referência internacional em mudanças climáticas na Amazônia; Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), especialista em desmatamento e políticas ambientais; e Mercedes Bustamante, da UnB, pesquisadora premiada por seu trabalho sobre biomas brasileiros e conservação.
No total, 27 instituições brasileiras tiveram representantes, incluindo a Fiocruz, o INPE, a UFRJ, a UFMG, a PUC-Rio e até o Banco Central do Brasil, com pesquisadores que atuam em modelagem econômica e sustentabilidade.
Mulheres na ciência: representatividade ainda desigual

Entre os 107 cientistas listados, apenas 22 são mulheres, o que expõe a desigualdade de gênero que ainda marca o campo científico.
Entre elas, destaque para Éster Sabino, imunologista da USP que sequenciou o genoma do novo coronavírus em tempo recorde, apenas dois dias após o primeiro caso confirmado no Brasil — uma conquista que colocou o país entre os líderes mundiais em vigilância genômica.
Outros nomes relevantes incluem Renata Bertazzi Levy, referência em políticas alimentares, Flávia Ribeiro Machado, da Unifesp, especialista em terapia intensiva, e Mercedes Bustamante, da UnB, que há anos lidera estudos sobre a degradação do Cerrado.
As áreas que mais influenciam políticas públicas
A pesquisa mostrou que a ciência brasileira mais citada no mundo ainda é a voltada à saúde e ao meio ambiente, mas há crescimento em temas como economia, urbanismo e energia.
Os tópicos mais recorrentes entre os pesquisadores da lista incluem:
- Doenças não transmissíveis e nutrição — foco de nomes como Monteiro e Victora;
- Doenças infecciosas e vacinas, com forte presença da Fiocruz e universidades federais;
- Mudanças climáticas e conservação ambiental, representadas por Nobre, Fearnside e Bustamante;
- Políticas econômicas e desenvolvimento sustentável, área de atuação de estudiosos como Sergio Firpo (FGV/Insper) e Claudio Ferraz (PUC-Rio/Ipea).
Essa diversidade mostra que a ciência brasileira tem papel estratégico em múltiplas frentes — da saúde global à economia verde.
O impacto além das universidades
Muitos desses cientistas não apenas publicam artigos, mas influenciam diretamente decisões governamentais. Suas pesquisas são citadas em relatórios da ONU, OMS, Banco Mundial, IPCC e até em planos de ação nacionais sobre nutrição, desmatamento e vacinação.
É o caso do pesquisador Carlos A. Nobre, que há décadas alerta para o risco do “ponto de não retorno” da Amazônia, tese hoje considerada base para políticas climáticas internacionais.
Já Pedro Brancalion, também da USP, tem contribuído para o desenho de programas de restauração florestal e manejo sustentável no Brasil e em outros países tropicais.
Uma amostra da potência científica brasileira
O levantamento da Bori e Overton é mais do que um ranking — é um retrato do quanto a ciência brasileira influencia o mundo real, mesmo enfrentando cortes de verba e falta de incentivo crônico.
Com destaque para universidades públicas como a USP, UFRJ, UFPel e UFMG, o estudo mostra que o Brasil segue sendo líder em pesquisa aplicada na América Latina e que sua produção acadêmica alimenta políticas que salvam vidas e protegem o meio ambiente.
A força de quem faz ciência no Brasil
Esses 107 nomes representam apenas a ponta visível de uma rede de milhares de pesquisadores que lutam para manter viva a ciência nacional — muitas vezes com recursos limitados, mas resultados gigantescos.
Num momento em que o conhecimento é questionado e a desinformação ganha espaço, esse ranking é um lembrete poderoso: a ciência brasileira importa — e muito.
[Fonte: Correio Braziliense]