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Ciência

“Loki” pode ser o fantasma de uma galáxia antiga: astrônomos encontram vestígios de um sistema que colidiu com a Via Láctea há mais de 10 bilhões de anos

Um grupo de estrelas extremamente antigas, com órbitas incomuns e química quase idêntica, pode revelar a existência de um sistema ancestral engolido pela nossa galáxia. O achado abre uma nova janela para entender como a Via Láctea se formou.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A formação da Via Láctea ainda guarda muitos mistérios — e um deles pode ter acabado de ganhar um novo capítulo. Um grupo internacional de cientistas identificou um conjunto peculiar de estrelas antigas que pode ser o último vestígio de um sistema estelar massivo que colidiu com nossa galáxia bilhões de anos atrás.

Os pesquisadores apelidaram esse possível sistema de “Loki”.

Estrelas antigas com comportamento incomum

Uma descoberta inesperada em estrelas extremamente antigas desafia os modelos clássicos sobre a formação da nossa galáxia
© https://x.com/NASA_es/

O estudo analisou 20 estrelas muito antigas localizadas relativamente próximas ao Sol. O que chamou atenção não foi apenas sua idade, mas suas órbitas: todas permanecem próximas ao plano da galáxia, algo incomum para estrelas tão antigas.

Algumas seguem o movimento normal de rotação galáctica (órbitas prógradas), enquanto outras se movem no sentido contrário (retrógradas). Além disso, suas trajetórias são altamente excêntricas, indicando uma origem turbulenta.

Uma assinatura química quase idêntica

Para entender melhor essas estrelas, os cientistas analisaram sua composição química com instrumentos de alta precisão. O resultado foi surpreendente: todas apresentam uma química extremamente semelhante entre si.

Esse padrão contrasta com o que se observa normalmente no halo galáctico, onde as estrelas exibem grande diversidade química. Aqui, é como se todas tivessem nascido no mesmo “ambiente fechado”.

Essa homogeneidade sugere que elas podem ter se formado juntas — em um mesmo sistema ancestral.

Um sistema que pode ter sido absorvido

A principal hipótese é que essas estrelas sejam restos de uma galáxia menor ou sistema estelar que foi engolido pela Via Láctea durante suas fases iniciais.

Simulações cosmológicas indicam que esse tipo de colisão poderia dispersar estrelas tanto em órbitas prógradas quanto retrógradas, exatamente como observado.

Além disso, o fato de não haver diferenças químicas relevantes entre os dois grupos reforça a ideia de uma origem comum.

O possível tamanho de “Loki”

Utilizando modelos de evolução galáctica, os pesquisadores estimaram a massa desse sistema ancestral. O resultado aponta para algo em torno de 1,4 bilhão de massas solares.

Esse valor é comparável ao de galáxias anãs conhecidas, como as Nuvens de Magalhães, o que sugere que Loki não era um sistema pequeno.

Se confirmada, essa descoberta indicaria que a Via Láctea cresceu absorvendo estruturas significativas ao longo de sua história.

Diferente de outros sistemas conhecidos

Dois sóis, três mundos e uma lição de humildade cósmica: o sistema TOI-2267 redefine como nascem os planetas
© Mario Sucerquia / University of Grenoble Alpes.

Nos últimos anos, os astrônomos identificaram diversas estruturas remanescentes de colisões antigas, como Nyx, Shiva e Sequoia. No entanto, o grupo associado a Loki não coincide completamente com nenhuma delas.

Análises avançadas mostraram que essas estrelas ocupam uma região distinta em termos de órbita e composição química, reforçando a ideia de que se trata de algo novo.

Ainda há dúvidas importantes

Apesar dos indícios, uma questão fundamental permanece em aberto: essas estrelas se formaram dentro da própria Via Láctea ou vieram de fora?

Os métodos tradicionais para responder isso perdem precisão quando aplicados a estrelas tão antigas e pobres em metais. Por isso, os cientistas ainda não conseguem descartar completamente nenhuma das hipóteses.

Um quebra-cabeça cósmico em formação

Ao ampliar a análise para outras estrelas com órbitas semelhantes, os pesquisadores encontraram uma população muito mais diversa, indicando que múltiplos sistemas podem ter contribuído para essa região da galáxia.

O que torna esse grupo especial é justamente a combinação rara de órbitas extremas e química homogênea.

O futuro da investigação

Novos projetos astronômicos, como levantamentos espectroscópicos de grande escala, devem trazer mais dados nos próximos anos. Esses estudos poderão confirmar se Loki realmente existiu — e qual foi seu papel na formação da Via Láctea.

Por enquanto, essas 20 estrelas permanecem como testemunhas silenciosas de um passado distante.

Elas orbitam a galáxia há mais de 10 bilhões de anos, carregando em sua composição pistas de uma época em que sistemas inteiros colidiam e se misturavam, ajudando a construir a estrutura que hoje chamamos de lar cósmico.

[ Fonte: La Brújula Verde ]

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