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Os donos do jogo: o que é real e o que é ficção na nova série da Netflix sobre o bicho no Rio

Inspirada em décadas de poder, sangue e impunidade, Os Donos do Jogo estreia na Netflix mergulhando no submundo do jogo do bicho carioca. A série mistura personagens fictícios e fatos baseados em histórias reais que moldaram uma das contravenções mais duradouras do Brasil.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Por trás das cores do Carnaval e dos sambas-enredo, existe um império construído sobre apostas ilegais, heranças familiares e violência. É nesse universo que Os Donos do Jogo, nova série da Netflix criada por Heitor Dhalia, leva o público. Embora seja uma obra de ficção, sua semelhança com a realidade do jogo do bicho no Rio de Janeiro é inquietante — e proposital.

Um império familiar que atravessa gerações

Os donos do jogo: o que é real e o que é ficção na nova série da Netflix sobre o bicho no Rio
© https://x.com/xamaoficial

O protagonista de Os Donos do Jogo é Profeta (André Lamoglia), um jovem herdeiro de uma família de bicheiros do interior do Rio que se muda para a capital para expandir seus negócios. Lá, ele mergulha em um mundo controlado por clãs familiares, alianças e traições — uma estrutura que, segundo especialistas, reflete de forma quase literal a realidade.

“O familismo é uma característica marcante do jogo do bicho como grupo criminal”, explica o sociólogo Daniel Hirata, coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF. A sucessão costuma seguir laços de sangue, e as disputas internas por poder não são raras.

Na série, o clã Guerra é comandado por Búfalo (Xamã), um ex-lutador de MMA que assume o trono ao se casar com a herdeira Suzana (Giullia Buscaccio). Mas o reinado é ameaçado pela cunhada, Mirna (Mel Maia), que também quer o controle da família.

Essa dinâmica ecoa casos reais, como os conflitos dentro do clã Andrade, um dos mais influentes da história do jogo do bicho no Rio. O lendário Castor de Andrade, morto em 1997, deixou um império dividido entre o filho Paulinho e o genro Fernando Iggnácio — ambos assassinados anos depois. A guerra familiar seguiu com o sobrinho, Rogério de Andrade, hoje preso, mas ainda apontado como um dos maiores bicheiros do país.

Da ficção à realidade: as cúpulas do bicho

Os donos do jogo: o que é real e o que é ficção na nova série da Netflix sobre o bicho no Rio
© https://x.com/xamaoficial

A série mostra uma espécie de “conselho de contraventores” que define territórios e resolve disputas. Esse detalhe também tem base real. Na década de 1970, surgiu no Rio a chamada Liga Independente dos Bicheiros, que reunia nomes como Castor de Andrade, Anísio Abraão David e Capitão Guimarães.

Esses chefões dividiram a cidade, financiaram escolas de samba e consolidaram um sistema mafioso com influência na política, na polícia e até em setores da economia formal. Segundo Hirata, “o jogo do bicho é a organização criminal mais poderosa e com maior penetração na economia do Rio de Janeiro”.

Hoje, uma nova geração de contraventores disputa o controle da Grande Tijuca e da Zona Sul, misturando métodos tradicionais com estratégias digitais.

A “máfia tropical” da Netflix

Heitor Dhalia define Os Donos do Jogo como uma obra de “máfia tropical” — um gênero que mistura a estética do crime organizado com o tempero carioca. O diretor garante que, apesar de ser ficção, o grau de verossimilhança é alto: “Entendemos que, para traduzir um universo tão complexo, precisávamos de uma pesquisa muito fundamentada”, disse à BBC Brasil.

O resultado é uma narrativa cheia de poder, sangue e ambição. Drones, execuções e disputas por territórios lembram a brutalidade real por trás do jogo do bicho. Investigações da Polícia Federal apontam que só o confronto entre Rogério Andrade e Fernando Iggnácio, entre 1999 e 2007, resultou em mais de 50 mortes.

A morte de Maninho Garcia, outro bicheiro histórico, é outro exemplo da violência endêmica do setor. Em 2004, ele foi morto com quatro tiros de fuzil a queima-roupa — um crime que expôs as conexões entre contravenção, tráfico de armas e execuções por vingança.

Mulheres em um universo dominado por homens

A série também chama atenção por mostrar mulheres que tentam romper a hegemonia masculina do crime. Mirna Guerra (Mel Maia) desafia os homens da própria família para assumir o comando dos negócios, enquanto Leila Fernandez (Juliana Paes) busca poder em meio ao controle do marido, Galego (Chico Diaz).

Segundo Hirata, essa representação é próxima da realidade: “O jogo do bicho é amplamente masculinizado, embora existam exceções. Algumas mulheres ocuparam posições de liderança, mas não é o padrão”.

Essas figuras femininas ajudam a humanizar a narrativa, sem romantizar o crime. Elas enfrentam o machismo e as regras impostas por um sistema que, na prática, continua sendo patriarcal e violento.

O elo entre o crime, o samba e a política

A ficção também retrata a relação dos bicheiros com o Carnaval — algo absolutamente real. O envolvimento com escolas de samba é antigo e profundo. Castor de Andrade, por exemplo, foi patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, e sua família segue ligada à agremiação até hoje.

Para o cientista político Danilo Freire, o apoio cultural serviu como estratégia de legitimação: “Eles criaram empregos, movimentaram o turismo e se tornaram símbolos da cultura carioca”, afirmou em entrevista à BBC Brasil.

Essa mistura de contravenção e prestígio social ainda se reflete em outras áreas. Investigações mostram que os bicheiros financiam campanhas políticas, pagam propinas a policiais e mantêm negócios legais para lavar dinheiro. Em 2023, o Ministério Público do Rio revelou que Rogério Andrade distribuiu mais de R$ 500 mil em propina a batalhões e delegacias em apenas dois dias.

Do bicho ao bet: o novo jogo dos criminosos

Um dos pontos mais atuais de Os Donos do Jogo é a chegada dos jogos online. Profeta, o protagonista, tenta lucrar revendendo apostas de plataformas digitais — um reflexo direto da transição real do mercado ilegal.

Nos últimos anos, operações policiais mostraram que antigos bicheiros têm migrado para o universo das bets e dos cassinos virtuais, buscando novas formas de lucro e lavagem de dinheiro. Em 2023, a Polícia Civil de Pernambuco investigou uma rede que usava sites de apostas para disfarçar o faturamento do jogo do bicho.

Esse embate entre o velho e o novo sintetiza o espírito da série: a tentativa de um império centenário de sobreviver à era digital sem perder seu DNA criminoso.

Realidade mais sombria que a ficção

Ao fim, Os Donos do Jogo não é apenas uma série policial, mas um retrato do poder entranhado na cultura carioca. Entre desfiles de Carnaval, propinas e execuções, a produção expõe um sistema que, apesar de ilegal, se mantém vivo há mais de um século.

A ficção pode exagerar nos dramas, mas a realidade é, muitas vezes, ainda mais cruel. E talvez seja por isso que a série incomoda tanto — porque mostra que, no Rio de Janeiro, o jogo nunca acaba, só muda de mãos.

[Fonte: Correio Braziliense]

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