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Ciência

Ozempic pode trazer um benefício inesperado: desacelerar o envelhecimento biológico

Dados apresentados por Novo Nordisk e Eli Lilly sugerem que semaglutida e tirzepatida podem reduzir indicadores moleculares associados ao envelhecimento. As diferenças chegaram a alguns anos em comparação com placebo. Os resultados ainda são preliminares e não demonstram que esses medicamentos prolongam a vida humana ou rejuvenescem seus usuários.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Medicamentos como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound já ajudam pessoas a perder peso e controlar a glicemia. Agora, pesquisadores investigam outra possibilidade: desacelerar o envelhecimento biológico. Cientistas das duas principais fabricantes apresentaram análises nas quais usuários desses tratamentos tiveram resultados mais favoráveis em diferentes “relógios” moleculares. A descoberta chama atenção, mas exige cuidado: alterar esses indicadores não equivale automaticamente a ganhar anos de vida com saúde.

O que os relógios do envelhecimento medem

As empresas apresentaram os resultados na 13ª edição da conferência Aging Research & Drug Discovery, dedicada à pesquisa do envelhecimento e ao desenvolvimento de medicamentos.

A equipe da Novo Nordisk analisou dados de ensaios clínicos existentes para investigar como a semaglutida afetava marcadores associados à passagem do tempo no organismo.

Essas medidas recebem o nome de relógios moleculares. Elas utilizam alterações biológicas para estimar aspectos do envelhecimento, em vez de considerar apenas a idade cronológica.

Os usuários de semaglutida apresentaram reduções nesses indicadores em comparação com o grupo placebo. Entretanto, a magnitude variou conforme o relógio utilizado e os órgãos avaliados.

Na maioria das medidas, a diferença correspondeu a cerca de dois a três anos. Um relógio baseado em proteínas relacionadas ao coração indicou aproximadamente quatro anos.

Isso descreve uma mudança nas estimativas dos modelos. Não significa que todos os órgãos rejuvenesceram nesse mesmo intervalo.

Tirzepatida também apresentou resultados favoráveis

Pesquisadores da Eli Lilly realizaram uma análise semelhante com tirzepatida, princípio ativo de Mounjaro e Zepbound. O medicamento combina a ação sobre GLP-1 com outra via hormonal, chamada GIP.

Nesse caso, a equipe examinou características epigenéticas: mudanças químicas relacionadas ao DNA que ajudam a regular a atividade dos genes.

Os relógios epigenéticos também sugeriram um envelhecimento mais lento entre usuários do medicamento, em comparação com o grupo de controle.

Segundo a MIT Technology Review, Kevin Duffin, vice-presidente de pesquisa sobre envelhecimento da Eli Lilly, afirmou que diferentes relógios apontavam na mesma direção. Ele também destacou que os resultados não representam uma reversão de décadas na idade dos participantes.

Ainda há perguntas importantes

Os estudos não passaram pelo processo habitual de revisão por pares. Essa avaliação permite que outros especialistas examinem os métodos, a interpretação dos dados e a qualidade das conclusões.

Além disso, cientistas das próprias fabricantes conduziram as análises. Pesquisas independentes serão importantes para verificar os resultados.

A ciência dos relógios de envelhecimento também permanece em desenvolvimento. Ainda não está totalmente claro quanto uma melhora nessas medidas se traduz em benefícios concretos para a saúde.

Outro limite envolve os participantes. As pesquisas analisaram pessoas com obesidade ou diabetes tipo 2. Portanto, os resultados não permitem afirmar que indivíduos sem essas condições teriam os mesmos efeitos.

Estudos futuros vão testar benefícios reais

A hipótese ganha interesse porque medicamentos dessa classe já reduzem o risco de alguns problemas de saúde associados ao envelhecimento, incluindo doenças cardiovasculares.

Pesquisas com animais também apontaram um possível aumento da longevidade. Entretanto, esses achados não demonstram que o mesmo acontecerá em humanos.

Um ensaio financiado pelo governo federal dos Estados Unidos deverá investigar diretamente se medicamentos GLP-1 e outros tratamentos podem prolongar a vida e favorecer o envelhecimento saudável em pessoas acima dos 60 anos.

Por enquanto, os novos dados oferecem uma pista promissora. A questão decisiva será descobrir se as mudanças nos relógios moleculares acompanham mais anos de vida e melhor saúde — algo que essas análises ainda não conseguem responder.

 

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