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Ciência

Uma substância presente no feijão e nos cogumelos virou alvo de pesquisas sobre envelhecimento

Presente em alimentos comuns, uma substância natural desperta interesse por seus possíveis efeitos sobre a longevidade e a memória. Entretanto, estudos em humanos revelam resultados menos conclusivos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

E se um dos segredos para envelhecer melhor estivesse escondido em alimentos que consumimos regularmente? Uma substância natural ganhou destaque entre pesquisadores por sua capacidade de influenciar processos celulares associados ao envelhecimento. Experimentos realizados em animais apresentaram resultados promissores, despertando o interesse da indústria de suplementos. Entretanto, quando os cientistas começaram a investigar seus efeitos em seres humanos, descobriram que a história era mais complicada do que parecia.

O que é a espermidina e por que ela desperta tanto interesse?

Uma substância presente no feijão e nos cogumelos virou alvo de pesquisas sobre envelhecimento
© Pexels

A substância em questão é a espermidina, uma molécula natural pertencente ao grupo das poliaminas, encontrada em praticamente todos os organismos vivos.

Ela participa de processos fundamentais para o funcionamento das células, incluindo crescimento, regulação genética e manutenção das proteínas.

O organismo humano produz espermidina naturalmente, mas também pode obtê-la por meio da alimentação. Além disso, bactérias presentes no intestino participam do metabolismo dessas substâncias.

O interesse científico aumentou quando pesquisadores identificaram uma possível relação entre a espermidina e a autofagia, mecanismo responsável pela reciclagem de componentes celulares.

Durante esse processo, estruturas danificadas ou desnecessárias são degradadas, permitindo que seus componentes sejam reaproveitados.

A autofagia é importante para a manutenção do equilíbrio celular e tem sido investigada em pesquisas sobre envelhecimento, doenças neurodegenerativas e metabolismo.

Experimentos com leveduras, vermes, moscas e camundongos sugerem que a espermidina pode influenciar esse mecanismo e, em determinadas condições, favorecer a longevidade.

Entretanto, resultados obtidos em organismos experimentais não significam necessariamente que os mesmos efeitos ocorram em seres humanos.

Um estudo de 12 meses trouxe resultados inesperados

Uma substância presente no feijão e nos cogumelos virou alvo de pesquisas sobre envelhecimento
© Pexels

Uma das principais promessas associadas à espermidina envolve a preservação da memória durante o envelhecimento.

Para investigar essa possibilidade, pesquisadores da Universidade de Medicina Charité, em Berlim, conduziram o estudo SmartAge, envolvendo 100 adultos mais velhos que relatavam dificuldades subjetivas de memória.

Durante 12 meses, parte dos participantes recebeu um suplemento contendo 0,9 miligrama de espermidina por dia, enquanto os demais utilizaram placebo.

Os cientistas avaliaram diferentes capacidades cognitivas, incluindo a habilidade de distinguir imagens semelhantes, uma função relacionada ao hipocampo.

Os resultados, publicados na revista científica JAMA Network Open, não identificaram melhora estatisticamente significativa na principal medida de memória.

Também não foram observados benefícios consistentes em outros indicadores cognitivos, comportamentais e fisiológicos.

Algumas análises exploratórias sugeriram possíveis efeitos sobre memória verbal e marcadores inflamatórios, mas essas observações precisam de confirmação.

O estudo clínico publicado na JAMA Network Open demonstra uma diferença fundamental entre o potencial biológico de uma substância e sua eficácia comprovada como suplemento.

Os pesquisadores ressaltaram que novas investigações, incluindo diferentes doses, poderiam ajudar a esclarecer os resultados.

A espermidina também pode proteger o coração?

Outra linha de investigação envolve a saúde cardiovascular.

Estudos observacionais identificaram associações entre maior consumo alimentar de espermidina e menor mortalidade por diferentes causas.

Uma pesquisa que acompanhou 829 participantes encontrou uma relação inversa entre a ingestão estimada da substância e o risco de morte durante o período estudado.

Entretanto, esse tipo de investigação apresenta limitações importantes.

Pessoas que consomem alimentos ricos em espermidina frequentemente mantêm padrões alimentares associados a melhores indicadores de saúde, incluindo maior ingestão de vegetais, legumes e cereais integrais.

Por isso, não é possível determinar se os resultados positivos decorrem especificamente da espermidina ou do conjunto de hábitos alimentares.

Além disso, estudos observacionais identificam associações, mas não demonstram necessariamente relações de causa e efeito.

Embora experimentos laboratoriais indiquem possíveis efeitos sobre processos inflamatórios e funções cardiovasculares, ainda faltam ensaios clínicos robustos que comprovem benefícios relevantes em humanos.

Quais alimentos contêm espermidina naturalmente?

A espermidina está presente em diversos alimentos encontrados facilmente no Brasil.

Além dos exemplos acima, leguminosas como feijão, lentilha e grão-de-bico contribuem para sua ingestão.

Vegetais também fornecem quantidades variáveis da substância, dependendo da espécie, das condições de cultivo e do processamento.

Uma alimentação diversificada pode oferecer espermidina sem necessidade de recorrer a produtos concentrados.

Entretanto, não existe uma recomendação diária universalmente estabelecida para a ingestão dessa molécula, nem uma quantidade comprovada capaz de retardar o envelhecimento humano.

Vale a pena tomar suplementos de espermidina?

O crescimento do mercado de produtos voltados à longevidade transformou a espermidina em ingrediente de diferentes suplementos alimentares.

Muitos desses produtos são apresentados como alternativas para melhorar a memória, proteger o coração e retardar processos relacionados ao envelhecimento.

Entretanto, a eficácia dessas promessas ainda não foi demonstrada de maneira convincente em estudos clínicos.

Uma revisão científica publicada em 2025 destacou mecanismos promissores envolvendo autofagia, proteção das mitocôndrias e manutenção das conexões entre neurônios.

Apesar disso, os autores também ressaltaram a necessidade de compreender melhor como esses mecanismos se traduzem em resultados clínicos.

Outro ponto importante envolve a segurança. Embora determinados estudos tenham encontrado boa tolerabilidade durante períodos limitados, ainda existem dúvidas sobre os efeitos de doses elevadas utilizadas continuamente.

A ausência de benefícios comprovados também significa que não há justificativa científica sólida para substituir tratamentos médicos ou estratégias preventivas estabelecidas por suplementos de espermidina.

A substância continua sendo um campo interessante de pesquisa, mas ainda está longe de representar uma solução comprovada contra o envelhecimento.

Por enquanto, a melhor estratégia permanece baseada em hábitos conhecidos: alimentação equilibrada, atividade física regular, sono adequado e controle dos fatores de risco cardiovascular.

A espermidina pode fazer parte dessa alimentação, mas transformar sua presença em uma promessa de vida mais longa seria antecipar conclusões que a ciência ainda não alcançou.

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