O voo que deveria marcar a consolidação do Starliner como alternativa americana de transporte tripulado acabou virando um estudo de caso sobre como não lidar com falhas técnicas. Um novo relatório de um painel independente acusa a NASA de ter suavizado um problema sério no veículo da Boeing, deixando astronautas meses a mais no espaço e criando incertezas sobre decisões de segurança — com possíveis reflexos até no programa Artemis.
Um problema sério que não recebeu o rótulo certo
O alerta veio do Aerospace Safety Advisory Panel (ASAP), um conselho independente que assessora a NASA em temas de segurança. Segundo o relatório, a agência falhou ao não classificar oficialmente como mishap (incidente de segurança) a pane sofrida pelo Starliner, da Boeing, durante sua primeira missão tripulada.
Essa decisão, segundo o painel, atrasou investigações formais, confundiu responsabilidades internas e deixou pouco claro quem, afinal, tinha a palavra final sobre o risco enfrentado pelos astronautas.
O voo que deu errado
O Starliner foi lançado em 5 de junho de 2024, a bordo de um foguete Atlas V da United Launch Alliance, em uma missão que deveria durar apenas oito dias. A bordo estavam os astronautas Butch Wilmore e Suni Williams.
Os problemas começaram ainda na aproximação da Estação Espacial Internacional: cinco propulsores falharam, comprometendo a manobra de acoplamento. Além disso, o veículo apresentou cinco vazamentos de hélio — um deles já conhecido antes mesmo do lançamento.
Meses de incerteza em órbita
Diante da gravidade da situação, o esperado seria a abertura imediata de uma investigação formal. Mas isso não aconteceu. Por meses, a NASA e a Boeing insistiram publicamente que o Starliner poderia trazer os astronautas de volta com segurança.
Enquanto isso, Wilmore e Williams permaneceram quase nove meses a bordo da ISS, enquanto equipes em terra tentavam entender o comportamento do veículo. No fim, a própria NASA concluiu que o Starliner não era seguro para o retorno da tripulação.
A solução foi recorrer à cápsula Dragon, da SpaceX, para trazer os astronautas de volta à Terra. O Starliner, por sua vez, desacoplou da estação em 6 de setembro de 2024 e retornou sozinho.
O erro procedural que gerou confusão
Segundo o ASAP, as regras internas da NASA são claras: falhas desse tipo exigem a declaração de um mishap, o que automaticamente aciona a área de segurança da agência, gera relatórios oficiais e documenta lições aprendidas.
“Não declarar um incidente em voo contribuiu para um período excessivamente longo em que a responsabilidade pelo risco e a autoridade de decisão não estavam claras”, afirmou Charlie Precourt, ex-comandante do ônibus espacial e membro do painel, em entrevista ao Ars Technica.
Ele ressaltou que há uma diferença fundamental entre tentar “provar que o veículo é seguro” e partir do princípio de que ele é não autorizado até que se compreenda totalmente a falha — abordagem que, segundo o painel, deveria ter sido adotada desde o início.
Impacto além do Starliner
A crítica vai além de um único voo. O relatório aponta que esse tipo de ambiguidade pode comprometer a cultura de segurança da agência em programas futuros, incluindo o Artemis, que pretende levar astronautas de volta à Lua.
O painel recomendou que, em situações semelhantes, a NASA elimine rapidamente qualquer dúvida sobre classificação de incidentes e cadeia de comando, priorizando investigações formais desde o primeiro sinal de risco à tripulação.
O futuro incerto do Starliner
Apesar do episódio, a NASA não descartou totalmente a cápsula da Boeing. Em novembro, a agência anunciou uma revisão do contrato de tripulação comercial, reduzindo de seis para quatro o número de missões previstas do Starliner.
O próximo voo está programado para não antes de abril de 2026 — e, desta vez, sem astronautas a bordo.
O caso deixa uma lição incômoda: mais do que falhas técnicas, decisões administrativas e de comunicação podem ampliar riscos. E, quando se trata de voos tripulados, minimizar problemas pode ser quase tão perigoso quanto eles próprios.