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Ciência

De onde veio o chapéu de bruxa? A evolução do cone mais famoso da cultura pop

O chapéu de bruxa é tão icônico que basta um desenho tosco para reconhecê-lo. Mas por trás desse cone pontudo — eternizado por O Mágico de Oz, Harry Potter e agora Wicked: Parte 2 — existe uma história cheia de desvios, perseguições religiosas, arte, moda medieval, censura, cerveja e… mal-entendidos históricos. Entenda como um simples acessório virou símbolo universal da feitiçaria.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Antes das bruxas: o cone dourado da Idade do Bronze

Muito antes de Elphaba, Hermione ou a Bruxa Má do Oeste, chapéus cônicos já existiam — e não tinham nada de sinistro. Achados arqueológicos da Idade do Bronze mostram peças douradas, longas e decoradas com símbolos astronômicos. Esses chapéus eram usados por sacerdotes considerados detentores de conhecimento divino.

Ou seja: o chapéu pontudo começou como símbolo de poder, não de feitiçaria.

Séculos depois, múmias chinesas conhecidas como “Bruxas de Subeshi” também apareceram usando chapéus altos. Mas a ligação com magia é moderna: na época, aquele formato era apenas um acessório comum da elite de sua região.

Quando o chapéu virou ferramenta de perseguição

De onde veio o chapéu de bruxa? A evolução do cone mais famoso da cultura pop
© Pexels

A virada sombria do chapéu cônico vem muito mais da política do que da magia. Diversos grupos marginalizados foram forçados a usar chapéus pontudos como forma de humilhação pública.

No século 13, judeus europeus foram obrigados a usar o “chapéu judeu”, um cone alto que os identificava como alvos. Em 1478, a Inquisição Espanhola adotou o capiroto — aquele capuz afilado usado por acusados de heresia, feitiçaria ou “desvios morais”. Ele existe até hoje em procissões da Semana Santa, embora totalmente ressignificado.

Para alguns historiadores, essa longa história de chapéus cônicos impostos à força ajudou a fixar o formato como símbolo de “perigo moral” — algo que mais tarde seria associado às bruxas.

A arte que moldou nossas bruxas: Goya, xilogravuras e medo coletivo

A imagem moderna da bruxa começou a tomar forma entre os séculos 17 e 19. Um exemplo marcante é O Voo das Bruxas (1798), de Francisco Goya: três mulheres grotescas, flutuando no ar, usando chapéus cônicos e associadas à ignorância e superstição.

Críticos interpretam a obra como uma crítica ao medo irracional — mas o símbolo pegou. Quanto mais artistas reproduziam feitiçaria com cone pontudo, mais o imaginário se consolidava.

Curiosamente, no início da Idade Moderna, mulheres acusadas de feitiçaria geralmente eram retratadas sem chapéu. Para os moralistas da época, cabelo solto era sinônimo de desordem social, desejo sexual e perigo — exatamente a imagem que queriam associar às “feiticeiras”.

O cone só entraria na equação bem depois, quando obras populares e contos infantis adotaram o formato.

Alewives: a teoria das cervejeiras que inspiraram bruxas

Uma das explicações mais curiosas envolve… cerveja. As alewives, mulheres cervejeiras medievais, eram frequentemente retratadas com chapéus altos para chamar clientes em feiras. Também usavam caldeirões (onde cozinhavam o mosto) e vassouras (para limpar a taverna).

A combinação virou mito moderno: chapéu alto + caldeirão + mulher independente + ervas → bruxa.

Mas historiadores, como Laura Kounine, dizem que isso é exagerado. Na prática, todo mundo tinha caldeirão, vassoura e algum tipo de chapéu na época. A associação posterior teria sido muito mais fruto da imaginação popular do que da realidade.

Como o chapéu pontudo virou sinônimo global de magia

A primeira referência direta conhecida de bruxa com chapéu cônico está no livro As Maravilhas do Mundo Invisível (1693). Mas, mesmo aí, não há certeza de que o autor queria fixar o símbolo — afinal, chapéus assim eram moda comum.

O cone virou padrão mesmo nos séculos 18 e 19, quando contos de fadas e pinturas começaram a repetir a imagem. Ele surgiu em representações de Cinderela, da Bela Adormecida e de outras figuras lendárias — porque era um símbolo aristocrático adaptado, e não necessariamente “místico”.

Resumindo: a bruxa ganhou o chapéu simplesmente porque era moda.

Da vilã verde ao ícone feminista: a reinvenção da bruxa

A bruxa assustadora que carregamos até hoje deve muito a O Mágico de Oz (1939). A performance de Margaret Hamilton — pele verde, nariz curvado, cone altíssimo — moldou o padrão definitivo da “bruxa má”.

Mas o século 20 trouxe uma reviravolta. Movimentos feministas passaram a reivindicar símbolos historicamente associados a mulheres perseguidas: solidariedade feminina, autonomia, fitoterapia e rebeldia. O chapéu pontudo virou símbolo de resistência.

A frase “somos as filhas das bruxas que vocês não conseguiram queimar” virou slogan de camisetas, memes e hashtags.

Wicked e a nova era do chapéu de bruxa

O livro Wicked (1995), o musical da Broadway e agora os filmes com Cynthia Erivo transformaram completamente a Bruxa Má do Oeste. Elphaba ganhou história, motivação, humanidade — e seu chapéu ganhou novo significado.

O figurinista Paul Tazewell, vencedor do Oscar, redesenhou o chapéu para dar a ele personalidade própria, com curvas e texturas que refletem o vínculo da personagem com a Terra. Ele deixou de ser uma marca de vilania e virou símbolo de identidade.

E afinal: o chapéu de bruxa é o quê?

Hoje, o chapéu pontudo continua polivalente:

– Para algumas tradições pagãs, ele conduz energia.

– Para crianças no Halloween, é fantasia obrigatória.

– Para o Google em 2021, foi a roupa de Halloween mais buscada.

– Para o cinema moderno, é nostalgia pura.

– Para o feminismo, é libertação.

A verdade é simples: o chapéu de bruxa nunca teve significado único. Ele é um símbolo mutável, influenciado por séculos de arte, medo, política e cultura pop — e continuará mudando.

E quando Wicked: Parte 2 chegar aos cinemas, pode apostar: mais uma geração vai redefinir o cone mais famoso da fantasia.

[Fonte: Correio Braziliense]

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