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Ciência

Para alcançar o cometa interestelar 3I/ATLAS, cientistas propõem uma manobra extrema que pode transformar uma nave no objeto mais rápido já criado

Um plano ousado prevê lançar uma sonda em direção ao Sol para usar sua gravidade como estilingue e interceptar o cometa interestelar 3I/ATLAS. A viagem poderia durar até 50 anos — e exigiria sobreviver a temperaturas de 1.400 °C. Se funcionar, abrirá uma nova era na exploração do espaço profundo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Desde a descoberta de 1I/ʻOumuamua, em 2017, e de 2I/Borisov, em 2019, a astronomia ganhou uma nova categoria de objetos: visitantes interestelares. O mais recente deles, 3I/ATLAS, reacendeu a imaginação dos cientistas. Agora, pesquisadores propõem uma missão audaciosa para persegui-lo — usando uma manobra tão arriscada que pode redefinir os limites da engenharia espacial.

Um alvo que foge rápido demais

Misterioso cometa 3I/ATLAS pode ser alcançado até 2085
© https://x.com/Ammar1176708/

O cometa 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto interestelar confirmado a atravessar nosso Sistema Solar. Ele se afasta da Terra a cerca de 61 quilômetros por segundo — velocidade que torna inviável qualquer tentativa de interceptação com motores químicos convencionais.

Para superar esse desafio, a Space Initiatives Inc. e a Universidade de Luxemburgo apresentaram, em um estudo publicado no arXiv, uma proposta baseada em física orbital extrema. A missão poderia ser lançada em 2035.

O plano depende de um princípio conhecido como efeito Oberth.

O efeito Oberth: acelerar onde a velocidade já é máxima

O efeito Oberth estabelece que um foguete é mais eficiente quando seus motores são acionados no ponto de maior velocidade orbital — geralmente o periapsis, a região mais próxima do corpo que está sendo orbitado.

A proposta é enviar a nave em direção ao Sol para realizar uma manobra extremamente próxima à estrela. Ao atingir o periélio, a apenas 3,2 raios solares da superfície, os motores seriam acionados no momento de maior velocidade possível, convertendo combustível em um enorme ganho de energia cinética.

O resultado: a nave poderia se tornar o artefato mais veloz já construído pela humanidade, superando recordes anteriores da NASA.

Sobreviver ao inferno solar

Chegar tão perto do Sol significa atravessar a corona solar, onde temperaturas podem atingir cerca de 1.400 °C.

Para resistir, o projeto prevê um escudo térmico semelhante ao utilizado pela Parker Solar Probe, reforçado com camadas adicionais de aerogel e materiais compostos de carbono.

Segundo Adam Hibberd, autor principal do estudo e criador do software Optimum Interplanetary Trajectory Software, o desafio é extremo, mas tecnicamente possível com materiais de última geração.

Além disso, o plano inclui assistência gravitacional de Júpiter para ajustar a trajetória e reduzir a velocidade no momento da aproximação ao cometa.

Uma viagem de até 50 anos

Um “cometa verde” faz sua última visita e nunca mais voltará
© https://x.com/GraceSpaceR/

Dependendo do ganho de velocidade obtido na manobra solar, a interceptação poderia ocorrer entre 30 e 50 anos após o lançamento.

No cenário mais otimista, com um incremento de velocidade de 10,36 km/s, a nave encontraria o cometa em cerca de 30 anos, a uma distância de 732 unidades astronômicas — mais de 700 vezes a distância entre a Terra e o Sol.

Seria uma façanha logística sem precedentes. Poucas missões já alcançaram regiões tão remotas do espaço.

Por que vale o risco?

O encontro provavelmente seria um sobrevoo rápido, devido às altas velocidades relativas. Ainda assim, obter dados diretos sobre a composição química de um objeto formado em outro sistema estelar teria valor científico incalculável.

Analisar 3I/ATLAS poderia revelar pistas sobre a formação de planetas em outras estrelas e ajudar a compreender melhor a diversidade de sistemas planetários na galáxia.

Além disso, o domínio de manobras solares desse tipo abriria portas para missões ainda mais ambiciosas — como enviar telescópios à região da lente gravitacional solar, localizada a cerca de 550 unidades astronômicas, ou explorar alvos hipotéticos como o Planeta Nove.

Uma nova fronteira da engenharia espacial

O custo de uma missão assim seria elevado, mas seus defensores argumentam que o retorno científico justificaria o investimento. Mais do que perseguir um cometa, trata-se de testar os limites do que é possível fazer no espaço profundo.

Se for aprovada e bem-sucedida, a missão ao 3I/ATLAS poderá marcar o início de uma nova fase da exploração interestelar — uma era em que não apenas observamos visitantes de outras estrelas, mas os alcançamos.

 

[ Fonte: National Geographic ]

 

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