O céu fica encoberto durante horas, a temperatura cai e, de repente, aquele chocolate guardado no armário parece muito mais interessante. Para algumas pessoas, dias frios e cinzentos realmente coincidem com maior fome e desejo por alimentos ricos em carboidratos. A ciência já encontrou sinais de que nosso apetite pode variar ao longo do ano. Mas a explicação não está simplesmente no clima: ela passa pelo relógio biológico, pelo humor e até pelos hábitos que associamos ao inverno.
Uma corrente de ar a quilômetros de altura pode fazer parte da história
A corrente de jato, ou jet stream, é uma faixa de ventos extremamente fortes que circula em grandes altitudes e influencia o deslocamento de sistemas de alta e baixa pressão.
Dependendo de sua posição e de suas ondulações, ela pode favorecer períodos prolongados de chuva, nebulosidade ou estabilidade atmosférica em determinadas regiões.
Isso não significa, porém, que a corrente de jato consiga ativar diretamente algum mecanismo cerebral responsável pela vontade de comer açúcar.
A relação é indireta.
Ao favorecer vários dias de céu encoberto, determinados padrões meteorológicos podem reduzir nossa exposição à luz solar.
E é nesse ponto que a biologia entra na história.
A luz é uma das principais informações utilizadas pelo cérebro para sincronizar o ritmo circadiano, nosso relógio interno. Esse sistema participa da regulação do sono, atividade, liberação hormonal e de diversos outros processos fisiológicos.
Quando a duração e a intensidade da luz mudam, algumas pessoas podem experimentar alterações no humor, no sono e também no apetite.
O efeito fica particularmente evidente em algumas pessoas durante o inverno
Um dos exemplos mais conhecidos aparece no transtorno afetivo sazonal, uma forma de depressão que surge de maneira recorrente em determinadas épocas do ano.
Entre seus possíveis sintomas estão aumento do apetite, maior ingestão calórica e desejo por alimentos ricos em carboidratos.
Pesquisas também encontraram mudanças sazonais na percepção dos sabores e nos desejos alimentares de pessoas com esse transtorno.
Durante muito tempo, uma explicação ganhou popularidade: comer carboidratos aumentaria a serotonina e, por isso, o cérebro começaria a “pedir” doces quando recebesse menos luz.
A realidade é mais complicada.
A serotonina participa da regulação do humor e do apetite e é estudada no contexto do transtorno afetivo sazonal. Mas ainda não existe uma cadeia simples capaz de demonstrar que céu cinzento leva à queda de serotonina e, automaticamente, ao desejo por açúcar.
Uma revisão sistemática encontrou diferenças nos hábitos alimentares de pessoas com o transtorno, mas também observou que simplesmente aumentar o consumo de carboidratos não demonstrou ser uma estratégia eficaz para melhorar seus sintomas.
Mesmo quem não tem depressão sazonal pode sentir mais fome
As mudanças no apetite não aparecem exclusivamente em pessoas com um diagnóstico clínico.
Um estudo com 315 adultos identificou variações sazonais na alimentação. Durante o outono, houve aumento da ingestão total de calorias e, particularmente, do consumo de carboidratos.
Os participantes também relataram refeições maiores e mais fome.
Outros trabalhos encontraram uma tendência semelhante em parte da população durante os meses de outono e inverno.
Isso sugere que o ambiente pode influenciar nossos hábitos alimentares de maneiras sutis, mesmo quando não existe um transtorno do humor.
Então, por que os dias cinzentos aumentam a vontade de comer doces?
Provavelmente porque vários fatores acontecem ao mesmo tempo.
A menor exposição à luz pode interferir nos ritmos circadianos e no estado de ânimo. O frio também modifica nossa rotina: podemos passar mais tempo dentro de casa, alterar os horários e reduzir algumas atividades físicas.
Existe ainda um componente cultural poderoso.
Chocolate, bolos, massas, sopas e outros pratos mais calóricos são frequentemente associados a chuva, frio, descanso e conforto. Essas associações podem reforçar a procura pela chamada comfort food.
Mudanças sazonais na luz, nos ritmos biológicos, no humor, na rotina e nas associações culturais podem, juntas, aumentar a fome ou o desejo por carboidratos em algumas pessoas.
A corrente de jato pode ajudar a manter as nuvens sobre nossas cabeças.
Mas entre um sistema de ventos a quilômetros de altitude e aquela vontade repentina de abrir uma barra de chocolate existe uma cadeia inteira de biologia, comportamento e memória.