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Tecnologia

Portugal se consolida como novo polo de data centers impulsado por energia renovável e custos competitivos

Portugal vive uma corrida global por infraestrutura digital: grandes empresas estão instalando centros de dados em cidades pequenas e regiões antes fora do mapa tecnológico, atraídas por eletricidade barata e cada vez mais limpa. Mas o rápido avanço esbarra em um desafio crítico: como garantir energia suficiente, sustentável e segura para tudo isso?
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Tempo de leitura: 3 minutos

Nos últimos anos, Portugal se transformou em um destino inesperado para gigantes da tecnologia que buscam instalar centros de dados na Europa. O país combina estabilidade política, boa conectividade internacional, mão de obra qualificada e, sobretudo, eletricidade barata com forte presença de fontes renováveis. Mas o boom traz consigo dilemas: a capacidade energética nacional pode não acompanhar a demanda, e os impactos ambientais de novos parques solares e eólicos já despertam resistência.

Investimentos bilionários longe dos grandes centros

Perovskita O “material Milagroso” Que Promete Revolucionar A Energia Solar
© X-@xataka

O movimento não se limita às grandes áreas urbanas portuguesas. Municípios do interior estão recebendo projetos de porte inédito.

Em Fundão, pequena cidade próxima à fronteira espanhola, a prefeitura anunciou um data center avaliado em 4 bilhões de euros, prometendo emprego e desenvolvimento regional. Cerca de 100 quilômetros ao sul, Abrantes planeja uma instalação ainda maior, estimada em 7 bilhões de euros, com previsão de criar ao menos 450 empregos diretos até 2030.

O entusiasmo dos prefeitos acompanha a expectativa de transformar localidades pouco industrializadas em polos de inovação. Em Abrantes, o prefeito Manuel Jorge Valamatos destaca a presença de uma central termoelétrica a gás, que pode fornecer energia adicional e garantir estabilidade para a operação.

Sines e o megaempreendimento que virou caso político

O maior projeto do país — e um dos maiores da Europa — está sendo construído em Sines, no litoral sul. Avaliado em 8,5 bilhões de euros, o complexo será conectado a um cabo submarino de fibra óptica vindo dos Estados Unidos, reforçando o papel estratégico de Portugal no tráfego de dados intercontinental.

Além disso, existe o plano de erguer uma “gigafábrica de inteligência artificial”, um investimento adicional de 4 bilhões de euros. O primeiro de seis edifícios já foi finalizado, mas o empreendimento causou turbulência política: investigações por suspeita de corrupção derrubaram um ministro e levaram à renúncia do então primeiro-ministro António Costa.

No entanto, a grande preocupação permanece: a energia. Somados, os novos centros de dados declararam uma demanda de 26,5 gigawatts, ultrapassando a atual capacidade total do país, que é de 23,4 gigawatts. Essa discrepância levanta questões sobre segurança energética e sustentabilidade.

Energia limpa, barata e… suficiente?

Energia Eolica
© Karsten Würth -Unsplash

Para João Peças Lopes, professor da Universidade do Porto e especialista em sistemas elétricos, Portugal tem vantagens claras: alta incidência solar, bons ventos e grande experiência em hidrelétricas. Mas isso talvez não baste.

Segundo o pesquisador, a expansão só será possível com forte aposta em energia solar e eólica offshore, já que o espaço em terra está praticamente saturado. O problema: ao longo da costa portuguesa, apenas parques eólicos flutuantes são viáveis, tecnologia mais cara e complexa.

Além disso, será necessária uma nova rede de linhas de alta tensão e sistemas robustos de armazenamento para equilibrar a produção intermitente.

Peças Lopes cita duas soluções principais:

  • Baterias de grande escala, capazes de armazenar energia solar excedente;

  • Hidrelétricas reversíveis, que bombeiam água para reservatórios mais altos durante o dia e geram eletricidade à noite.

O governo já projeta investimentos de 13 bilhões de euros em infraestrutura energética nos próximos cinco anos, incluindo três novas turbinas hidrelétricas.

Cresce a resistência ambiental

O avanço acelerado das energias renováveis tem provocado críticas. Em várias regiões, comunidades e organizações denunciam que projetos solares e eólicos têm sido aprovados sem estudos ambientais adequados — inclusive dentro ou próximos de áreas protegidas.

Francisco Ferreira, presidente da ONG ambiental Zero, afirma que não se opõe à instalação de data centers. Mas alerta que “a expansão das renováveis precisa ser planejada de modo a minimizar danos à biodiversidade”. Ele também defende que novas linhas de transmissão sigam traçados menos invasivos.

Peças Lopes acredita que há alternativas viáveis, como o transporte parcial de energia por cabos submarinos, reduzindo o impacto em áreas sensíveis. A tecnologia, segundo ele, já foi estudada e não encareceria significativamente os projetos — resta apenas decisão política.

 

[ Fonte: DW ]

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