Se confirmada, a ação representaria a primeira intervenção terrestre direta dos EUA no país sul-americano desde o início da atual campanha militar americana no Caribe.
Declaração sem detalhes e silêncio oficial
A fala de Trump ocorreu em uma conversa telefônica com o empresário John Catsimatidis, dono da rádio WABC e aliado político do presidente. Segundo Trump, uma grande instalação ligada ao envio de drogas por via marítima teria sido destruída dias antes. “Eles tinham uma planta enorme, de onde saíam barcos, e nós a destruímos”, disse.
Embora o presidente não tenha citado a Venezuela nominalmente naquele momento, fontes do governo ouvidas pelo The New York Times afirmaram que a referência era, de fato, ao país governado por Nicolás Maduro. Ainda assim, nem o Exército dos EUA, nem a CIA, tampouco a Casa Branca confirmaram oficialmente a operação.
Do lado venezuelano, o governo também não reconheceu qualquer ataque em seu território.
Escalada militar no Caribe preocupa especialistas

Questionado dias depois, Trump reforçou a versão e afirmou que houve uma “grande explosão” em uma área portuária usada para carregar drogas em embarcações. Segundo ele, tanto os barcos quanto a infraestrutura teriam sido atingidos.
Até agora, os Estados Unidos já atacaram dezenas de lanchas no Caribe e no Pacífico Oriental, alegando transporte de drogas. Esses ataques, no entanto, não vieram acompanhados de provas públicas. Especialistas em direito internacional classificam parte dessas ações como ilegais, enquanto críticos do governo falam em mortes extrajudiciais. Mais de cem pessoas teriam morrido nessas operações.
Paralelamente, Washington ampliou sua presença naval na região. O porta-aviões USS Gerald R. Ford, o mais moderno da frota americana, lidera a chamada Operação Lança do Sul, sinal claro de dissuasão militar.
Petróleo, sanções e mudança de discurso
Inicialmente, a justificativa da campanha americana era o combate ao narcotráfico. Com o tempo, o foco passou a incluir o petróleo venezuelano, principal fonte de receita do governo de Nicolás Maduro.
Em dezembro, Trump determinou um bloqueio “total e completo” a petroleiros sancionados que entrem ou saiam da Venezuela. Um desses navios, o Skipper, foi apreendido; outros dois, Centuries e Bella 1, foram interceptados ou perseguidos.
A medida é vista por analistas como uma tentativa de sufocar economicamente Caracas e aumentar a pressão por uma mudança de regime.
Números sem provas e retórica inflamada
Durante a entrevista na WABC, Trump afirmou que cada barco destruído “salva 25 mil vidas americanas” e que o fluxo de drogas teria caído 97,2%. Nenhuma dessas afirmações foi acompanhada de dados verificáveis.
Em outro momento, ao ser questionado sobre o fornecimento de petróleo venezuelano aos EUA em caso de queda de Maduro, Trump misturou acusações sobre drogas, migração e suposto roubo de recursos, ampliando o tom retórico da ofensiva.
Operações encobertas e novo patamar de tensão
O próprio Trump já havia anunciado que a campanha naval seria seguida por ações terrestres contra alvos ligados à produção de drogas. Em outubro, confirmou também ter autorizado operações encobertas da CIA na Venezuela.
Além disso, Washington designou o chamado Cartel dos Sóis como organização terrorista — grupo que os EUA alegam ser liderado por integrantes do alto escalão do governo venezuelano. A classificação amplia os poderes legais para ações militares e policiais.
No fim das contas, o alerta é claro: mesmo sem confirmações independentes, as declarações de Trump indicam uma escalada perigosa. Entre drogas, petróleo e política externa, a fronteira entre retórica e conflito real parece cada vez mais tênue.
[Fonte: BBC]