A depressão maior é hoje um dos principais desafios de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 5,7% dos adultos no mundo convivem com o transtorno. Embora existam antidepressivos e psicoterapia, uma parcela significativa dos pacientes não apresenta melhora satisfatória. É nesse cenário que pesquisadores vêm explorando o potencial terapêutico de substâncias psicodélicas — agora com dados clínicos mais robustos.
O que o estudo investigou

O novo ensaio clínico foi conduzido por cientistas do Imperial College London, no Reino Unido, e publicado na revista Nature Medicine. A pesquisa avaliou o uso da dimetiltriptamina (DMT), um composto psicodélico presente em plantas utilizadas na ayahuasca.
Participaram 34 adultos, entre 21 e 53 anos, com diagnóstico de depressão maior moderada a grave há pelo menos dois anos e histórico de falha em ao menos dois tratamentos anteriores. Os voluntários interromperam antidepressivos semanas antes do estudo e passaram por triagem psiquiátrica rigorosa.
O desenho foi duplo-cego na primeira fase: metade recebeu DMT por via intravenosa (21,5 mg infundidos em 10 minutos), enquanto a outra metade recebeu placebo. Nem pacientes nem profissionais sabiam quem estava em cada grupo. Na segunda etapa, todos receberam a substância.
Melhora rápida e mantida por meses
Os resultados chamaram atenção. Após duas semanas, o grupo que recebeu DMT apresentou redução média de 7,35 pontos a mais na escala Montgomery-Åsberg Depression Rating Scale (MADRS), usada internacionalmente para medir sintomas depressivos, em comparação ao placebo.
A melhora foi descrita como rápida e significativa. Mais relevante ainda: o efeito positivo foi mantido por até três meses em grande parte dos participantes — e, em alguns casos, persistiu até seis meses.
Os pesquisadores também avaliaram se seria necessário repetir a dose. Não houve diferença clara entre quem recebeu uma ou duas aplicações, sugerindo que uma única sessão pode ser suficiente para gerar benefício prolongado.
Segurança e efeitos adversos

Em relação à segurança, os efeitos colaterais foram classificados como leves a moderados. Entre os mais relatados estavam náuseas, desconforto no local da infusão e episódios breves de ansiedade. Não foram registrados eventos graves nem alterações clínicas preocupantes.
Um dado interessante: participantes que relataram experiências subjetivas mais intensas durante a sessão — como mudanças marcantes na percepção ou emoções profundas — apresentaram maior redução dos sintomas. Isso sugere que a qualidade da experiência psicodélica pode estar ligada ao efeito terapêutico.
Como o DMT atua no cérebro

Revisões recentes também publicadas na Nature Medicine indicam que psicodélicos clássicos, como o DMT, atuam principalmente no receptor de serotonina 5-HT2A. Esse mecanismo promove alterações temporárias nos padrões rígidos de conectividade cerebral.
Em termos simples, o cérebro parece “flexibilizar” circuitos associados a pensamentos repetitivos e negativos — comuns na depressão. Após a experiência, observa-se uma janela de maior plasticidade psicológica, que pode facilitar mudanças emocionais e cognitivas quando combinada com psicoterapia.
O papel do suporte terapêutico
O protocolo incluiu sessões preparatórias, acompanhamento durante a administração da substância e encontros de integração posteriores. A aplicação ocorreu em ambiente controlado, com dois terapeutas e um psiquiatra presentes, luz suave e música planejada para o contexto.
Esse suporte é considerado parte essencial da intervenção. A chamada “aliança terapêutica” pode influenciar diretamente os resultados, reforçando que não se trata apenas da substância isolada, mas da experiência estruturada.
Limitações e próximos passos
Apesar dos resultados promissores, os autores destacam limitações importantes. O número de participantes foi pequeno e houve baixa diversidade étnica. Além disso, pessoas com histórico de psicose ou tentativas graves de suicídio foram excluídas, o que restringe a generalização dos achados.
O pesquisador David Erritzoe, do Imperial College, afirmou que a duração curta da sessão — cerca de 25 minutos — pode tornar o DMT potencialmente mais viável economicamente do que outros psicodélicos de ação prolongada.
Ainda assim, especialistas alertam que estudos maiores e comparações com tratamentos padrão são necessários antes que a terapia possa ser incorporada à prática clínica.
O que fica claro é que a psiquiatria vive um momento de transformação. Após décadas com poucas inovações, compostos antes associados apenas a contextos culturais ou recreativos passam a ser investigados com rigor científico — oferecendo novas perspectivas para pacientes que já esgotaram as alternativas tradicionais.
[ Fonte: Infobae ]