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Ciência

Quatro estrelas presas em um espaço minúsculo: astrônomos descobrem o sistema quádruplo mais compacto já observado

Observações do telescópio espacial TESS revelaram um raro sistema estelar com quatro estrelas organizadas em uma estrutura extremamente compacta. Três delas orbitam muito próximas entre si enquanto uma quarta gira mais distante — ainda assim em uma órbita surpreendentemente curta para sistemas desse tipo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O universo está cheio de sistemas estelares complexos. Embora o Sol seja uma estrela solitária, muitas estrelas nascem em pares ou em grupos. Agora, astrônomos identificaram um dos exemplos mais curiosos já observados: um sistema formado por quatro estrelas extremamente próximas entre si.

O sistema, chamado TIC 120362137, foi detectado por pesquisadores usando dados do Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS), da NASA. O estudo, publicado na revista Nature, descreve o sistema quádruplo mais compacto já encontrado até hoje.

A configuração é incomum: duas estrelas formam um binário eclipsante — ou seja, elas passam uma na frente da outra do ponto de vista da Terra — enquanto uma terceira estrela orbita esse par. Mais distante, uma quarta estrela completa o conjunto.

Um sistema estelar extremamente apertado

A descoberta começou com um comportamento estranho observado na luminosidade do objeto. Inicialmente, os astrônomos perceberam que o brilho da estrela diminuía por cerca de 1,5 dia, sinal típico de duas estrelas orbitando uma à outra.

Mas havia outro detalhe: a cada 26 dias ocorria um segundo escurecimento, sugerindo a presença de uma terceira estrela no sistema.

Quando os pesquisadores analisaram com mais atenção as variações no tempo dos eclipses, perceberam que algo ainda não fazia sentido. O padrão indicava a presença de um quarto corpo gravitacional influenciando o sistema.

Dados coletados pelo TESS entre 2019 e 2024 confirmaram a hipótese. A quarta estrela orbita o conjunto interno a cada 1.045,5 dias — o menor período já observado para uma estrela externa em um sistema quádruplo desse tipo.

Três estrelas dentro da órbita de Mercúrio

A estrutura do sistema impressiona pela compactação. As três estrelas internas estão confinadas em uma região comparável ao tamanho da órbita de Mercúrio ao redor do Sol.

Já a quarta estrela orbita um pouco mais distante, em uma região aproximadamente equivalente à órbita de Júpiter no nosso sistema solar.

Mesmo assim, para padrões astronômicos, essa distância ainda é considerada extremamente pequena para um sistema com quatro estrelas.

As três estrelas internas são mais quentes e massivas que o Sol, enquanto a estrela externa tem características mais semelhantes à nossa estrela.

Segundo Tibor Mitnyan, pesquisador da Universidade de Szeged, na Hungria, e coautor do estudo, sistemas hierárquicos compactos como esse ainda levantam muitas perguntas sobre a formação estelar.

Estrelas geralmente nascem em grupos a partir do colapso de grandes nuvens moleculares de gás e poeira. Dependendo das interações gravitacionais durante o processo, podem formar sistemas binários, triplos ou até mais complexos.

Um futuro dramático para essas estrelas

Além de mapear a estrutura atual do sistema, os cientistas também simularam sua evolução futura.

Em cerca de 300 milhões de anos, as três estrelas internas devem colidir e se fundir gradualmente, formando uma única anã branca — o núcleo extremamente denso que resta após a morte de estrelas.

A quarta estrela também evoluirá para uma anã branca com o passar do tempo.

No final, o sistema deverá se transformar em um par de anãs brancas orbitando uma à outra com período de aproximadamente 44 dias.

Um enigma cósmico disfarçado

Curiosamente, se os astrônomos observassem esse par de anãs brancas no futuro distante, talvez nunca imaginassem a história complexa por trás dele.

Segundo Mitnyan, seria praticamente impossível deduzir que aquele sistema começou como um arranjo extremamente compacto de quatro estrelas.

Descobertas como essa mostram que o universo pode esconder estruturas muito mais complexas do que imaginamos — e que mesmo sistemas aparentemente simples podem ter passado por histórias cósmicas surpreendentes.

 

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