O universo está cheio de sistemas estelares complexos. Embora o Sol seja uma estrela solitária, muitas estrelas nascem em pares ou em grupos. Agora, astrônomos identificaram um dos exemplos mais curiosos já observados: um sistema formado por quatro estrelas extremamente próximas entre si.
O sistema, chamado TIC 120362137, foi detectado por pesquisadores usando dados do Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS), da NASA. O estudo, publicado na revista Nature, descreve o sistema quádruplo mais compacto já encontrado até hoje.
A configuração é incomum: duas estrelas formam um binário eclipsante — ou seja, elas passam uma na frente da outra do ponto de vista da Terra — enquanto uma terceira estrela orbita esse par. Mais distante, uma quarta estrela completa o conjunto.
Um sistema estelar extremamente apertado
A descoberta começou com um comportamento estranho observado na luminosidade do objeto. Inicialmente, os astrônomos perceberam que o brilho da estrela diminuía por cerca de 1,5 dia, sinal típico de duas estrelas orbitando uma à outra.
Mas havia outro detalhe: a cada 26 dias ocorria um segundo escurecimento, sugerindo a presença de uma terceira estrela no sistema.
Quando os pesquisadores analisaram com mais atenção as variações no tempo dos eclipses, perceberam que algo ainda não fazia sentido. O padrão indicava a presença de um quarto corpo gravitacional influenciando o sistema.
Dados coletados pelo TESS entre 2019 e 2024 confirmaram a hipótese. A quarta estrela orbita o conjunto interno a cada 1.045,5 dias — o menor período já observado para uma estrela externa em um sistema quádruplo desse tipo.
Três estrelas dentro da órbita de Mercúrio
A estrutura do sistema impressiona pela compactação. As três estrelas internas estão confinadas em uma região comparável ao tamanho da órbita de Mercúrio ao redor do Sol.
Já a quarta estrela orbita um pouco mais distante, em uma região aproximadamente equivalente à órbita de Júpiter no nosso sistema solar.
Mesmo assim, para padrões astronômicos, essa distância ainda é considerada extremamente pequena para um sistema com quatro estrelas.
As três estrelas internas são mais quentes e massivas que o Sol, enquanto a estrela externa tem características mais semelhantes à nossa estrela.
Segundo Tibor Mitnyan, pesquisador da Universidade de Szeged, na Hungria, e coautor do estudo, sistemas hierárquicos compactos como esse ainda levantam muitas perguntas sobre a formação estelar.
Estrelas geralmente nascem em grupos a partir do colapso de grandes nuvens moleculares de gás e poeira. Dependendo das interações gravitacionais durante o processo, podem formar sistemas binários, triplos ou até mais complexos.
Um futuro dramático para essas estrelas
Além de mapear a estrutura atual do sistema, os cientistas também simularam sua evolução futura.
Em cerca de 300 milhões de anos, as três estrelas internas devem colidir e se fundir gradualmente, formando uma única anã branca — o núcleo extremamente denso que resta após a morte de estrelas.
A quarta estrela também evoluirá para uma anã branca com o passar do tempo.
No final, o sistema deverá se transformar em um par de anãs brancas orbitando uma à outra com período de aproximadamente 44 dias.
Um enigma cósmico disfarçado
Curiosamente, se os astrônomos observassem esse par de anãs brancas no futuro distante, talvez nunca imaginassem a história complexa por trás dele.
Segundo Mitnyan, seria praticamente impossível deduzir que aquele sistema começou como um arranjo extremamente compacto de quatro estrelas.
Descobertas como essa mostram que o universo pode esconder estruturas muito mais complexas do que imaginamos — e que mesmo sistemas aparentemente simples podem ter passado por histórias cósmicas surpreendentes.