Medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro já foram associados a uma lista crescente de efeitos colaterais. Agora, pesquisadores encontraram outro possível problema para acompanhar: alterações nas unhas.
Um novo estudo apresentado no Congresso 2026 da European Academy of Dermatology and Venereology (EADV) descobriu que pessoas que utilizam agonistas do receptor GLP-1 relataram descolamento das unhas com frequência mais de quatro vezes superior à observada em pessoas que não tomavam esses medicamentos.
E as unhas não foram o único sinal. Um segundo estudo realizado pelo mesmo grupo também encontrou maior frequência de queda de cabelo e problemas no couro cabeludo.
Problemas nas unhas apareceram em 66% dos usuários
Os pesquisadores analisaram 575 pessoas que utilizavam medicamentos GLP-1 para tratar obesidade ou diabetes tipo 2 e compararam os resultados com mais de 1.300 participantes que apresentavam essas condições, mas nunca haviam utilizado os medicamentos.
Os participantes foram recrutados na França, Estados Unidos, Brasil e México.
Segundo os resultados apresentados pela EADV, 66% dos usuários de GLP-1 relataram pelo menos algum tipo de alteração nas unhas. Entre os participantes que não utilizavam os medicamentos, o número foi de 53%.
A diferença ficou muito maior quando os pesquisadores analisaram especificamente o descolamento das unhas.
Cerca de 39% dos usuários relataram o problema, contra apenas 9% do grupo de controle.
Alterações na coloração também foram frequentes: apareceram em 46% dos usuários de GLP-1 e em 17% das pessoas que não utilizavam esses medicamentos.
E não parece ser apenas consequência da perda de peso
Uma explicação aparentemente simples seria a rápida perda de peso provocada por medicamentos como semaglutida e tirzepatida.
Mudanças bruscas no peso podem afetar cabelos e unhas, especialmente quando acompanhadas de alterações nutricionais.
Mas os pesquisadores encontraram algo curioso.
Mesmo quando analisaram especificamente pessoas que haviam perdido peso, as diferenças entre usuários e não usuários de GLP-1 continuaram significativas.
Isso sugere que a perda de peso pode não explicar todo o fenômeno.
Ainda assim, existem outras possíveis causas. Aproximadamente metade dos usuários já apresentava algum problema nas unhas antes de iniciar o tratamento, e condições dermatológicas ou deficiências nutricionais também podem influenciar os resultados.
A queda de cabelo também apareceu com frequência
Outro estudo do mesmo grupo analisou cabelo e couro cabeludo.
Metade dos usuários de GLP-1 relatou uma queda de cabelo considerada incomum, contra 34% no grupo de controle.
A perda de volume ou densidade capilar apareceu em 42% dos usuários, enquanto entre os não usuários a taxa foi de 19%.
O estudo também encontrou mais relatos de coceira, vermelhidão e descamação do couro cabeludo.
Esse detalhe chamou a atenção dos pesquisadores porque pode indicar que nem todos os casos estejam relacionados apenas ao chamado eflúvio telógeno, uma queda temporária de cabelo que pode ocorrer depois de grandes alterações metabólicas ou rápida perda de peso.
A relação entre GLP-1 e alopecia já vinha sendo investigada anteriormente. A FDA atualizou informações de segurança de diversos medicamentos dessa classe depois de identificar relatos de alopecia em seu sistema de monitoramento de eventos adversos.
Ainda não dá para culpar diretamente o Ozempic
Apesar dos números, existe uma limitação fundamental.
Os estudos são observacionais, transversais e dependem de sintomas relatados pelos próprios participantes. Eles conseguem mostrar uma associação, mas não demonstram que medicamentos GLP-1 sejam responsáveis pelas alterações.
Os trabalhos também foram apresentados em um congresso científico e ainda não passaram pelo processo completo de revisão por pares.
Além disso, a pesquisa recebeu apoio institucional dos laboratórios Ducray, pertencentes ao grupo Pierre Fabre, empresa que comercializa produtos dermatológicos e tratamentos voltados para cabelo e couro cabeludo.
Os próprios pesquisadores reconhecem essas limitações e planejam acompanhar pacientes desde o início do tratamento para entender melhor quando essas alterações aparecem e se são reversíveis.
Por enquanto, a recomendação não é abandonar medicamentos como Ozempic, Wegovy ou Mounjaro ao perceber mudanças no cabelo ou nas unhas.
Mas vale prestar atenção.
Queda persistente de cabelo, coceira ou vermelhidão no couro cabeludo e, principalmente, unhas começando a se desprender são sinais que devem ser discutidos com um médico ou dermatologista.
Afinal, os GLP-1 podem estar mudando muito mais no organismo do que apenas o número mostrado na balança.