A inteligência artificial já ocupa espaços que, até pouco tempo atrás, dependiam exclusivamente de pessoas. Ela escreve códigos, auxilia médicos, responde dúvidas e ajuda estudantes. Mas, à medida que essas ferramentas se tornam mais poderosas, também cresce a preocupação com aquilo que estamos dispostos a delegar às máquinas.
Para Carlos Regazzoni, médico especialista em bioestatística, o potencial da tecnologia é enorme. O problema é que governos, instituições e a própria sociedade ainda não estariam preparados para lidar com suas consequências.
“Cada vez há mais riscos”

Em entrevista ao Infobae Al Amanecer, Regazzoni afirmou que a IA pode provocar grandes mudanças na programação, matemática e medicina.
“É uma ferramenta extraordinária, com um poder que realmente surpreende a cada minuto”, afirmou.
O entusiasmo, porém, vem acompanhado de preocupação. Segundo o especialista, os alertas sobre possíveis riscos da inteligência artificial não começaram agora. Diferentes setores discutem o problema há pelo menos quatro anos.
A velocidade do desenvolvimento torna a situação ainda mais delicada.
“Há cada vez mais riscos e estamos cada vez menos preparados”, resumiu Regazzoni.
Para ele, a IA pode melhorar diversas atividades profissionais, mas sua adoção precisa ser acompanhada de limites, preparação institucional e regulamentação.
O médico chegou a comparar seu potencial ao da energia nuclear. Ambas podem proporcionar grandes benefícios, mas também apresentam riscos capazes de exigir controles específicos.
O perigo de delegar o pensamento
Uma das maiores preocupações de Regazzoni está na educação.
O especialista relacionou o debate aos resultados de avaliações educacionais, como o PISA, e argumentou que o uso excessivo de ferramentas automatizadas pode prejudicar o desenvolvimento de determinadas habilidades.
“Delegamos o pensamento. É nisso que o julgamento se deteriora”, afirmou.
A preocupação não significa que a inteligência artificial deva ser retirada das salas de aula. Pelo contrário: Regazzoni reconhece que ela pode ampliar significativamente as capacidades de quem sabe utilizá-la.
O desafio seria evitar que estudantes simplesmente substituam o próprio raciocínio pelas respostas produzidas automaticamente.
Para o médico, a IA pode funcionar como um “gigante” sobre o qual as capacidades humanas conseguem crescer. Isso, porém, depende da maneira como a tecnologia é utilizada.
IA pode ajudar médicos a tomar decisões melhores

Na saúde, Regazzoni vê algumas das aplicações mais promissoras.
A inteligência artificial pode reduzir tarefas administrativas, ajudar na interpretação de grandes quantidades de informação e servir como apoio durante decisões clínicas.
O especialista acredita que sistemas de autoconsulta também vieram para ficar. Conforme os modelos evoluírem, poderão responder a um número maior de dúvidas relacionadas à saúde.
Ainda assim, existem limites importantes.
Segundo Regazzoni, consultar sintomas ou exames com uma IA pode funcionar como orientação inicial, desde que fique claro que o usuário está interagindo com uma máquina e que ela não substitui um profissional.
O médico também rejeita a ideia de proibir completamente a busca individual por informações sobre saúde. Para ele, usar uma IA para tentar compreender um sintoma pode ser comparável, em alguns aspectos, a procurar informações em livros ou outras fontes.
Quando utilizada por profissionais, a tecnologia pode ter um impacto ainda maior.
“Um médico que utiliza inteligência artificial como auxílio para suas decisões toma decisões melhores e consegue melhores resultados de saúde”, afirmou.
Na oncologia, por exemplo, sistemas avançados podem ajudar profissionais menos experientes a analisar casos complexos e alcançar resultados mais próximos daqueles obtidos por especialistas.
Usar ChatGPT como psicólogo exige mais cuidado
Regazzoni faz uma distinção importante quando o assunto passa da medicina geral para a saúde mental.
Para ele, utilizar chats de IA como substitutos de psicólogos envolve riscos maiores. O sistema pode produzir respostas convincentes e aparentemente empáticas, mas não estabelece uma relação afetiva real com o usuário.
“ChatGPT como psicólogo é uma questão muito mais delicada”, afirmou.
O especialista mencionou relatos de episódios de psicose relacionados a interações intensas com chatbots. O risco aumenta quando uma pessoa começa a atribuir consciência, compreensão ou sentimentos reais às respostas produzidas pela máquina.
Por isso, o uso da tecnologia em situações envolvendo saúde mental exigiria ainda mais cautela e mecanismos de proteção.
A inteligência artificial também pode mudar o mercado de trabalho
Outra preocupação está no emprego.
Regazzoni argumenta que um único sistema de inteligência artificial poderá executar simultaneamente tarefas equivalentes às de vários profissionais, inclusive médicos.
Essa produtividade pode trazer benefícios, mas também transformar profissões que historicamente ofereceram bons salários e oportunidades de ascensão social.
Ao mesmo tempo, trabalhos manuais especializados podem se valorizar.
Carpinteiros, eletricistas, técnicos e profissionais responsáveis por reparos e instalações realizam tarefas físicas que continuam difíceis de automatizar completamente.
Para Regazzoni, esse cenário mostra por que o debate sobre inteligência artificial precisa ir além das capacidades impressionantes dos novos modelos. A questão central será decidir quais tarefas queremos entregar às máquinas — e quais decisões ainda devem permanecer sob responsabilidade humana.
[ Fonte: Infobae ]