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Ciência

Queijo e creme de leite gordurosos podem reduzir risco de demência

Durante anos, alimentos ricos em gordura foram tratados como vilões da saúde. Queijo, então, quase sempre entrou na lista do “coma com moderação”. Mas um novo estudo acaba de bagunçar esse consenso — pelo menos quando o assunto é cérebro. Pesquisadores encontraram uma associação surpreendente entre o consumo de queijos e creme de leite mais gordurosos e um menor risco de demência. Entenda o que o estudo diz, o que ele não diz e por que o resultado chama tanta atenção.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Um estudo grande, longo e cheio de dados

A pesquisa foi publicada na revista Neurology, da Academia Americana de Neurologia, e analisou dados de mais de 27 mil pessoas acompanhadas por cerca de 25 anos. É tempo suficiente para observar padrões de saúde ao longo da vida, incluindo o surgimento de doenças neurodegenerativas.

Os participantes relataram o que comeram durante uma semana e também responderam questionários sobre seus hábitos alimentares ao longo dos anos. Além disso, explicaram como preparavam suas refeições, o que ajudou os cientistas a entender melhor o contexto da dieta.

O que os pesquisadores descobriram

Queijo e creme de leite gordurosos podem reduzir risco de demência
© Pexels

Ao comparar os dados, os cientistas observaram algo curioso: pessoas que consumiam diariamente 50 gramas ou mais de queijo com alto teor de gordura — como cheddar, brie e gouda — apresentaram um risco 13% menor de desenvolver demência em comparação com quem consumia menos de 15 gramas por dia.

Quando o foco foi um tipo específico da doença, o resultado ficou ainda mais expressivo. O consumo elevado desses queijos esteve associado a um risco 29% menor de demência vascular, que está ligada a problemas na circulação sanguínea do cérebro.

Já no caso da doença de Alzheimer, o efeito positivo apareceu apenas em pessoas que não carregam a variante genética APOE e4, um dos principais fatores de risco hereditários para a condição.

E o creme de leite entra nessa história?

Sim. Os pesquisadores também analisaram o consumo de creme de leite integral, com mais de 30% de gordura. Quem consumia ao menos 20 gramas por dia apresentou um risco 16% menor de desenvolver demência em comparação com quem não consumia nada.

Esses números não significam que creme de leite seja um “remédio” para o cérebro, mas indicam que certos laticínios ricos em gordura podem ter um papel diferente do que se imaginava na saúde neurológica.

Nem todo laticínio tem o mesmo efeito

Aqui vai um ponto importante. O estudo não encontrou qualquer associação positiva quando analisou versões com baixo teor de gordura. Queijos light, creme de leite light, leite integral ou desnatado, manteiga e laticínios fermentados como iogurte, kefir e leitelho não alteraram o risco de demência.

Segundo Emily Sonestedt, pesquisadora da Universidade de Lund, na Suécia, e uma das autoras do estudo, isso mostra que nem todos os laticínios são iguais quando o assunto é saúde cerebral. O tipo de gordura — e talvez a forma como o alimento é processado — pode fazer diferença.

Gordura ainda é vilã? Calma lá

Apesar do entusiasmo, os próprios cientistas fazem um alerta importante. O estudo mostra uma associação, não uma relação de causa e efeito. Em outras palavras, não dá para afirmar que comer queijo gorduroso reduz o risco de demência.

Pode ser que pessoas que consomem esses alimentos tenham outros hábitos de vida que também influenciam a saúde do cérebro. Por isso, os pesquisadores reforçam a necessidade de mais estudos para entender os mecanismos por trás dessa relação.

O que isso muda na prática?

O trabalho desafia uma ideia antiga de que toda gordura é ruim para o cérebro. Ele sugere que alguns laticínios ricos em gordura podem não ser os vilões que imaginávamos — pelo menos no contexto da demência.

Isso não significa liberar geral no queijo e no creme de leite. Mas indica que a relação entre dieta, gordura e saúde cerebral é mais complexa do que as recomendações simplistas do passado.

Enquanto a ciência avança, o melhor caminho continua sendo equilíbrio, variedade e atenção ao conjunto da dieta — e não apenas a um único alimento.

[Fonte: Correio Braziliense]

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