Um levantamento inédito revelou quais pesquisadores brasileiros mais influenciam políticas públicas no mundo. O estudo analisou milhões de relatórios, pareceres e documentos estratégicos utilizados por governos, organismos internacionais e entidades civis desde 2019 — materiais que orientam decisões sobre saúde, alimentação, clima e desenvolvimento social. Ao todo, 107 pesquisadores do Brasil foram identificados como referências diretas nessas decisões, influenciando mais de 33,5 mil políticas públicas em diferentes países.
Na primeira posição está o epidemiologista César Victora, professor emérito da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), renomado por seus estudos sobre saúde infantil e aleitamento materno. Seus trabalhos aparecem citados em 3.109 documentos oficiais, com impacto comprovado em programas adotados em mais de 20 países, além de contribuir para a formulação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança, no Brasil.
Por que César Victora é referência mundial
A ministra do MCTI, Luciana Santos, e o presidente do CNPq, Ricardo Galvão, participaram, nesta quarta (10), de entrega da 35ª edição do Prêmio Almirante Álvaro Alberto, ao epidemiologista Cesar Victora.
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— CNPq (@CNPq_Oficial) May 12, 2023
Victora é considerado um dos mais importantes especialistas em nutrição infantil. Seu trabalho sobre a importância do aleitamento materno exclusivo nos primeiros meses de vida é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e fundamentou recomendações adotadas em diferentes continentes.
Para ele, ver suas pesquisas se transformarem em políticas públicas é o auge da carreira científica:
“Embasa políticas públicas é o mais alto reconhecimento que um cientista pode receber da sociedade”, afirmou.
Os demais nomes no topo da lista
Logo após Victora, o estudo destaca outros pesquisadores com forte impacto internacional:
- Carlos Monteiro (USP) — criador da classificação NOVA, referência mundial nos debates sobre alimentos ultraprocessados.
- Aluísio Barros (UFPel) — especialista em saúde materno-infantil e metodologias de avaliação de desigualdades.
- Paulo Saldiva (USP) — pesquisador de poluição atmosférica e saúde urbana, com estudos utilizados em ações ambientais no Brasil e no exterior.
- Pedro Hallal (UFPel) — epidemiologista que coordenou os maiores inquéritos nacionais sobre prevalência da Covid-19.
Juntos, os cinco pesquisadores acumulam mais de 5.500 citações em documentos oficiais que orientaram políticas de saúde pública, nutrição, saneamento, mobilidade urbana e resposta à pandemia.
Top 10 pesquisadores brasileiros mais influentes em políticas públicas
- César Victora (UFPel)
- Carlos Monteiro (USP)
- Aluísio Barros (UFPel)
- Paulo Saldiva (USP)
- Pedro Hallal (UFPel)
- João Campari (WWF International)
- Pedro Brancalion (USP)
- Bernardo Strassburg (PUC-Rio)
- Álvaro Avezum (Hospital Alemão Oswaldo Cruz)
- Britaldo Filho (UFMG)
A USP concentra o maior número de pesquisadores na lista, com 22 nomes.
A desigualdade de gênero persiste
Apesar do destaque brasileiro, o levantamento também evidencia baixa representatividade feminina: apenas 22 dos 107 pesquisadores identificados são mulheres.
Entre elas:
- Ester Sabino (USP) — conhecida por seu trabalho sobre vírus emergentes e atuação na pandemia.
- Luciana Gatti (Inpe) — referência em mudanças climáticas e no monitoramento das emissões de carbono na Amazônia.
- Mercedes Bustamante (UnB) — especialista em conservação e políticas ambientais, com estudos citados em mais de 130 documentos internacionais.
O que o estudo revela sobre a ciência brasileira
O levantamento foi conduzido pela Agência Bori, em parceria com a Overton, a maior plataforma de dados sobre a interface entre ciência e políticas públicas.
Para Euan Adie, fundador da Overton, o resultado confirma o peso crescente da ciência brasileira no debate internacional:
“O mapeamento mostra a força da ciência brasileira e ajuda a entender quais cientistas influenciam as políticas — e quem ainda está fora dessa conversa.”
Já Ana Paula Morales, diretora da Bori, destaca a importância da comunicação científica:
“Quando a evidência é comunicada de forma clara e acessível, molda o entendimento público e capacita a sociedade a exigir decisões embasadas no conhecimento.”
Em um momento global de disputas narrativas e desinformação, o estudo reforça uma mensagem essencial: não basta produzir ciência — é preciso fazê-la circular.
[ Fonte: CNN Brasil ]