Redes sociais, mecanismos de busca e ferramentas de inteligência artificial estão moldando uma nova forma de se relacionar com o cuidado em saúde. O estudo Consultando o “Doutor Google”, publicado na revista Cadernos de Saúde Pública, revela como a era digital está redesenhando a relação médico-paciente, especialmente na Psiquiatria, e propõe caminhos éticos para equilibrar autonomia, confiança e responsabilidade profissional.
Quando a informação vem do Google

O levantamento foi realizado com 200 pacientes atendidos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, além de 92 médicos de diferentes especialidades. Dos pacientes entrevistados, 87% estavam conectados à internet, e 85% buscavam informações sobre saúde on-line, sendo o Google a principal fonte para mais de 90% deles.
Cerca de um quinto dos entrevistados admitiu ler apenas o primeiro link exibido nos resultados. Redes sociais e aplicativos de mensagens também apareceram como fontes relevantes, mostrando o peso das plataformas digitais na formação da opinião em saúde.
O estudo ainda identificou que mulheres e pessoas com maior escolaridade são as que mais buscam informações digitais, enquanto pacientes com doenças crônicas tendem a discutir com mais frequência o que encontram com seus médicos.
O desejo de participar das decisões
Mais do que desconfiança médica, o que move esse comportamento é o desejo de protagonismo. Pacientes querem compreender melhor seus diagnósticos, opinar sobre tratamentos e participar das decisões. Essa busca por autonomia ficou especialmente evidente entre as mulheres.
Ainda assim, apenas 24% dos entrevistados consideram as informações da internet confiáveis. A maioria reconhece a fragilidade das fontes, mas mantém o hábito de pesquisar — muitas vezes como complemento ou contraponto à consulta médica.
Médicos entre a prudência e o medo
Entre os profissionais de saúde entrevistados, as reações são ambivalentes.
- 62% relataram que pacientes trazem perguntas sobre algo que leram on-line;
- 51% chegam a pedir exames com base em pesquisas próprias;
- 33% sugerem tratamentos;
- e 13% pedem mudança de medicação.
Mais de 80% dos médicos acreditam que as informações digitais podem gerar medo desnecessário e comprometer a adesão ao tratamento. Apesar disso, poucos rejeitam totalmente as demandas dos pacientes: 55% consideram-nas inadequadas, mas 66% acabam cedendo parcial ou totalmente — muitas vezes por precaução jurídica, diante do aumento da judicialização da medicina.
Um novo modelo de cuidado
Os resultados evidenciam que o antigo modelo paternalista, em que o médico era a única voz autorizada, está cedendo espaço a uma relação mais horizontal. O paciente agora chega munido de informações — corretas ou não — e espera diálogo, não apenas prescrição.
Para o autor do estudo, residente em Psiquiatria no Hospital das Clínicas da USP, o desafio está em conciliar autoridade técnica e empatia. É preciso acolher o que o paciente traz, esclarecer sem arrogância e adaptar a linguagem para garantir compreensão. Essa postura fortalece o vínculo e reduz os efeitos nocivos da desinformação.
A urgência da literacia digital em saúde

Durante a pandemia de COVID-19, o impacto das fake news ficou evidente: tratamentos ineficazes, medo e atrasos no diagnóstico custaram vidas. A lição, segundo o estudo, é que alfabetização digital em saúde precisa se tornar prioridade — tanto nas instituições quanto entre os profissionais.
A curadoria de informações confiáveis, o incentivo a fontes verificadas e o ensino sobre riscos de automedicação são passos essenciais para recuperar a confiança e reduzir o ruído entre o que o paciente lê e o que o médico recomenda.
[ Fonte: The Conversation ]