Quando os cigarros eletrônicos surgiram, por volta de 2010, foram recebidos com certo otimismo por parte de especialistas em saúde pública. A ideia parecia promissora: oferecer nicotina sem os produtos tóxicos da combustão do cigarro tradicional. Durante anos, chegou-se a afirmar que o vape seria significativamente menos prejudicial.
Mas, com o aumento do consumo — especialmente entre adolescentes — e o avanço das pesquisas, esse cenário começou a mudar. Hoje, a comunidade científica revisa com mais cautela os riscos associados ao uso desses dispositivos.
O impacto no coração e nos vasos sanguíneos

Estudos recentes indicam que o uso de cigarros eletrônicos está associado a efeitos negativos no sistema cardiovascular. Pesquisas publicadas em revistas como American Journal of Physiology mostram que pessoas que vaporizam nicotina apresentam quase 50% mais chances de ter pressão arterial elevada em comparação com quem não utiliza esses produtos.
Embora isso não prove uma relação direta de causa e efeito, os dados reforçam uma tendência preocupante.
A explicação está, em grande parte, na nicotina. Essa substância provoca aumentos imediatos na frequência cardíaca e na pressão arterial, colocando o sistema cardiovascular sob estresse. Além disso, compostos químicos presentes nos líquidos aromatizados podem danificar o endotélio — o revestimento interno dos vasos sanguíneos responsável por manter o fluxo adequado e prevenir a formação de coágulos.
Alguns estudos também apontam maior incidência de infarto entre usuários de cigarros eletrônicos, especialmente quando combinados com o uso de cigarros convencionais.
Efeitos que vão além do coração
Os pulmões também estão entre os principais afetados. Pesquisas indicam que usuários de vape apresentam redução na função pulmonar, mesmo quando considerados fatores como histórico de tabagismo.
Sintomas como tosse persistente, chiado no peito e sinais semelhantes aos da bronquite são mais frequentes entre quem utiliza esses dispositivos.
Além disso, há evidências de aumento da resistência das vias aéreas, o que pode dificultar a respiração e desencadear crises asmáticas. Em alguns casos, os efeitos podem persistir mesmo após o uso pontual.
A nicotina continua sendo o problema central

Um relatório da Sociedade Europeia de Cardiologia reforça um ponto importante: a nicotina é, por si só, uma substância tóxica para o sistema cardiovascular — independentemente da forma como é consumida.
Seja em cigarros tradicionais, eletrônicos, produtos de tabaco aquecido ou até mesmo em alternativas mais recentes, o impacto no organismo permanece relevante.
O documento também alerta para os riscos da exposição passiva, indicando que inalar vapor ou fumaça de terceiros pode causar danos vasculares.
Vape não ajuda a parar de fumar — e pode fazer o oposto
Um dos principais argumentos a favor dos cigarros eletrônicos era seu potencial como ferramenta para abandonar o tabagismo. No entanto, estudos mais recentes colocam essa ideia em dúvida.
Em vez de ajudar a parar, o vape pode incentivar o chamado “uso dual” — quando a pessoa utiliza tanto o cigarro eletrônico quanto o tradicional.
Além disso, há evidências de que esses dispositivos funcionam como porta de entrada para o tabagismo, especialmente entre jovens.
O avanço preocupante entre adolescentes

O crescimento do uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes é uma das maiores preocupações atuais. A Organização Mundial da Saúde já classificou esses dispositivos como prejudiciais e inseguros.
Dados indicam que jovens que começam a vapear têm até três vezes mais chances de migrar para o cigarro tradicional.
Outro dado chama atenção: grande parte dos jovens adultos que usam vape nunca havia fumado antes. Isso sugere que, longe de ser uma alternativa para fumantes, o produto está criando uma nova geração de dependentes de nicotina.
Uma percepção que está mudando
A imagem do vape como opção “segura” vem sendo gradualmente desconstruída à medida que novas evidências surgem.
Especialistas destacam que ainda há muito a ser investigado, especialmente sobre os efeitos a longo prazo. No entanto, o consenso atual aponta para a necessidade de cautela — e de políticas públicas mais rigorosas.
O que parecia uma solução pode, na prática, estar criando novos problemas de saúde. E, diante disso, a principal mensagem da ciência hoje é clara: menos combustão não significa ausência de risco.
[ Fonte: Infobae ]