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Ciência

Resíduos de telas eletrônicas chegam ao cérebro de golfinhos e marsopas: estudo acende alerta sobre lixo tecnológico no oceano

Compostos usados em telas de LCD foram encontrados no cérebro de cetáceos ameaçados no Mar do Sul da China. A descoberta revela que resíduos de eletrônicos podem atravessar barreiras biológicas críticas e levanta preocupações sobre riscos neurológicos e genéticos ainda pouco compreendidos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A poluição plástica já é um problema conhecido nos oceanos. Mas um novo estudo mostra que o impacto do lixo tecnológico pode ser ainda mais profundo — literalmente. Pesquisadores identificaram compostos sintéticos usados em telas eletrônicas acumulados no cérebro de golfinhos e marsopas ameaçados de extinção.

A descoberta, publicada em periódico da American Chemical Society, amplia o debate sobre os efeitos invisíveis da indústria eletrônica nos ecossistemas marinhos.

O que os cientistas encontraram

Microplast
© Unsplash

Entre 2007 e 2021, os pesquisadores analisaram amostras de gordura, músculo, fígado, rim e tecido cerebral de duas espécies que habitam o Mar do Sul da China: o golfinho-corcunda-do-indo-pacífico e a marsopa-sem-barbatana-do-indo-pacífico.

Foram identificados 62 tipos diferentes de monômeros de cristal líquido (LCM), substâncias fundamentais na fabricação de telas de LCD. As maiores concentrações apareceram na gordura — algo esperado devido à natureza lipossolúvel desses compostos. O dado mais alarmante, porém, foi a presença detectada no tecido cerebral.

Isso indica que essas substâncias conseguem atravessar a barreira hematoencefálica, mecanismo biológico que normalmente protege o cérebro contra toxinas. A capacidade de ultrapassar essa barreira sugere possíveis efeitos neurotóxicos.

O que são os monômeros de cristal líquido

Os LCM são compostos orgânicos sintéticos utilizados em televisores, monitores, notebooks e smartphones para controlar a passagem de luz nas telas de cristal líquido. Eles foram amplamente empregados durante décadas por sua estabilidade química e durabilidade.

Essa mesma resistência à degradação, que garante qualidade de imagem e eficiência energética, também faz com que persistam no ambiente por longos períodos. Quando dispositivos eletrônicos são descartados de forma inadequada, esses compostos podem ser liberados no ar, no pó doméstico e, posteriormente, atingir águas residuais e ecossistemas costeiros.

Embora parte da indústria tenha migrado para tecnologias como LED, milhões de aparelhos contendo LCM ainda estão em uso ou em aterros sanitários.

Da tela ao oceano

O caminho até os cetáceos envolve a cadeia alimentar. À medida que resíduos eletrônicos se degradam, os LCM se dispersam no ambiente. Eles podem alcançar rios e áreas costeiras, onde são absorvidos por peixes e invertebrados.

Predadores de topo, como golfinhos e marsopas, acumulam essas substâncias ao consumir presas contaminadas. Esse processo de bioacumulação é comum em poluentes persistentes.

O estudo também mostrou que os níveis desses compostos acompanharam a evolução do mercado: aumentaram durante o auge das telas LCD e começaram a cair após a expansão das tecnologias LED. Ainda assim, os resíduos já presentes no ambiente continuam circulando.

Possíveis efeitos biológicos

Golfinhos estão vivendo menos — e a culpa é da pesca
© Pexels

Testes laboratoriais com os quatro LCM mais detectados revelaram alterações na atividade genética relacionada à reparação do DNA e à divisão celular em células de golfinho. Isso pode indicar riscos à saúde reprodutiva e ao funcionamento biológico das espécies.

Como se trata de animais já ameaçados de extinção, qualquer fator adicional de estresse químico é motivo de preocupação.

Os autores alertam que os impactos de longo prazo ainda não estão totalmente quantificados, especialmente no que diz respeito a efeitos neurológicos e genéticos cumulativos.

Existe risco para humanos?

O estudo não demonstrou impactos diretos em humanos. No entanto, a presença desses compostos na cadeia alimentar marinha levanta questionamentos.

Como os LCM conseguiram atravessar a barreira hematoencefálica em cetáceos, pesquisadores consideram importante investigar se poderia haver exposição humana por meio do consumo de frutos do mar contaminados ou de água dessalinizada.

Até o momento, não há evidência de uma crise de saúde pública. Mas os cientistas defendem monitoramento contínuo.

O que pode ser feito

Especialistas recomendam prolongar a vida útil de dispositivos eletrônicos, priorizar reparos e descartar equipamentos corretamente em pontos de coleta apropriados.

Também defendem regulamentações mais rígidas sobre o uso de substâncias químicas persistentes na indústria eletrônica e maior fiscalização do destino do lixo tecnológico.

A chamada “tecnologia rápida” — compra frequente de aparelhos baratos e descartáveis — contribui para o aumento da poluição eletrônica global.

O estudo reforça uma mensagem já conhecida: o impacto ambiental da tecnologia não termina quando desligamos a tela. Em muitos casos, ele apenas começa.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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