Nos últimos anos, discussões sobre qualidade de vida, trabalho remoto e redução da carga horária ganharam espaço em diversas partes do mundo. Em países da Europa, empresas e governos testam semanas de quatro dias e modelos mais flexíveis de emprego. Na América Latina, porém, a realidade ainda é bastante diferente. Em grande parte da região, milhões de pessoas enfrentam jornadas longas, acumulam mais de uma ocupação e passam horas em deslocamentos diários.
Nesse contexto, um levantamento internacional revelou que um país latino-americano ocupa o primeiro lugar em um ranking que chama a atenção de economistas e especialistas em mercado de trabalho. A liderança, no entanto, está longe de representar uma vantagem clara.
Peru lidera o ranking mundial de horas trabalhadas

Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam que o Peru registra cerca de 2.263 horas trabalhadas por pessoa ao ano, a maior média do mundo. O número coloca o país à frente de outras nações latino-americanas conhecidas por suas jornadas extensas, como México e Costa Rica.
A marca impressiona principalmente porque supera com folga a média observada em países desenvolvidos. Para muitos trabalhadores peruanos, a necessidade de permanecer mais tempo em atividade está ligada à busca por renda suficiente para cobrir despesas básicas, em um cenário marcado por desigualdades econômicas e elevada informalidade.
Em muitos casos, uma única ocupação não garante estabilidade financeira. Isso leva parte da população a combinar diferentes empregos ou atividades informais ao longo da semana, ampliando significativamente a carga de trabalho.
A informalidade influencia diretamente os números
Especialistas destacam que o mercado de trabalho peruano apresenta características que ajudam a explicar os resultados. A informalidade continua sendo um dos principais fatores.
Quando trabalhadores atuam sem vínculos formais ou proteção trabalhista adequada, é comum que jornadas mais extensas sejam vistas como uma necessidade para aumentar a renda mensal. Além disso, a ausência de mecanismos de controle e fiscalização pode contribuir para cargas horárias superiores às recomendadas.
Outro aspecto relevante são os deslocamentos urbanos. Em grandes centros populacionais, muitas pessoas passam várias horas por dia em trânsito. Embora esse tempo nem sempre seja contabilizado oficialmente como trabalho, ele impacta diretamente a rotina, reduzindo períodos de descanso, lazer e convivência familiar.
Mais horas não significam mais produtividade

Apesar de liderar o ranking global, o Peru não aparece entre as economias mais produtivas do mundo. Esse contraste ajuda a explicar por que especialistas defendem que a produtividade depende de fatores muito mais complexos do que simplesmente aumentar o tempo dedicado ao trabalho.
A comparação com países europeus é reveladora. Nações como Alemanha e Dinamarca registram entre 1.300 e 1.400 horas anuais por trabalhador, quase mil horas a menos que o Peru. Ainda assim, apresentam índices de produtividade significativamente superiores.
Segundo economistas, a diferença está relacionada à qualidade da infraestrutura, ao acesso à tecnologia, à qualificação profissional e à eficiência dos processos produtivos. Em outras palavras, produzir mais valor em menos tempo costuma ser mais importante do que prolongar a jornada.
Um desafio para toda a América Latina
O caso peruano evidencia uma questão que afeta grande parte da América Latina. Enquanto economias desenvolvidas buscam equilibrar desempenho econômico e bem-estar social, muitos países da região continuam dependentes de jornadas extensas para sustentar a renda de milhões de trabalhadores.
Essa realidade cria uma espécie de paradoxo moderno. Embora as pessoas trabalhem cada vez mais horas, isso nem sempre resulta em maior prosperidade, melhor qualidade de vida ou crescimento econômico sustentável.
Os 10 países com mais horas trabalhadas por ano
- Peru – 2.263 horas
- México – 2.193 horas
- Costa Rica – 2.149 horas
- Croácia – 1.956 horas
- Chile – 1.919 horas
- Grécia – 1.898 horas
- Israel – 1.877 horas
- Coreia do Sul – 1.856 horas
- Chipre – 1.844 horas
- Romênia – 1.829 horas
Os números mostram que o debate sobre trabalho não se resume à quantidade de horas dedicadas ao emprego. Cada vez mais, especialistas defendem que o futuro das economias dependerá da capacidade de aumentar a produtividade sem sacrificar a saúde, o tempo livre e o bem-estar dos trabalhadores.
[ Fonte: Canal26 ]