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Tecnologia

Sensores, IA e vigilância constante: a Toyota já começou a testar sua cidade futurista

Ao pé do Monte Fuji, uma cidade experimental começou a receber moradores reais cercados por inteligência artificial, sensores e câmeras. O projeto promete conforto absoluto, mas também levanta uma pergunta desconfortável.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, cidades futuristas existiram apenas em filmes de ficção científica. Ruas inteligentes, carros autônomos, robôs circulando entre pessoas e inteligência artificial integrada ao cotidiano pareciam ideias distantes demais para virar realidade. Mas isso começou a mudar no Japão. A Toyota decidiu construir do zero uma cidade inteira dedicada a testar como humanos e tecnologia poderão conviver nas próximas décadas. O resultado parece impressionante. E ao mesmo tempo, bastante perturbador.

A Toyota não queria criar um centro tecnológico comum

Tudo começou oficialmente em 2020, quando a Toyota apresentou um projeto urbano extremamente ambicioso durante a CES, uma das maiores feiras de tecnologia do planeta. Em vez de construir apenas um laboratório de pesquisa tradicional, a empresa japonesa resolveu transformar uma antiga fábrica em um ambiente urbano totalmente funcional.

A ideia era simples no papel, mas gigantesca na prática: criar uma cidade real onde pessoas viveriam diariamente cercadas por tecnologias ainda experimentais.

Foi assim que nasceu a Woven City.

Localizada perto do Monte Fuji, na cidade japonesa de Susono, ela foi concebida como uma “living laboratory”, ou seja, um laboratório vivo onde praticamente tudo pode virar experimento. O investimento já ultrapassa bilhões de dólares e apenas uma pequena parte do projeto final foi concluída até agora. Mesmo assim, a cidade já funciona com moradores reais.

Os primeiros habitantes foram escolhidos cuidadosamente pela própria Toyota. Muitos são engenheiros, pesquisadores e profissionais ligados diretamente ao desenvolvimento tecnológico da empresa. Internamente, eles são chamados de “Weavers”.

Os apartamentos seguem um estilo minimalista inspirado na estética japonesa e nórdica, mas o verdadeiro diferencial está escondido nos sistemas internos. Robôs domésticos, monitoramento de saúde, sensores inteligentes e automação integrada fazem parte da rotina diária dos moradores.

Até as ruas foram desenhadas de maneira diferente.

Algumas áreas são exclusivas para veículos autônomos rápidos. Outras foram pensadas para mobilidade leve e transporte pessoal. Certos espaços são totalmente reservados para pedestres. Tudo foi planejado para funcionar como um enorme ecossistema urbano controlado.

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© Toyota

A cidade usa inteligência artificial para observar praticamente tudo

A lista de tecnologias em teste dentro da Woven City parece saída diretamente de um filme futurista.

Existem robôs de entrega circulando pelas ruas, sistemas inteligentes de climatização capazes de reduzir drasticamente a presença de pólen no ar e veículos autônomos que funcionam como assistentes pessoais, buscando carros automaticamente e levando-os até seus proprietários.

Mas uma das partes mais curiosas envolve inteligência artificial emocional.

Segundo demonstrações da própria Toyota, alguns sistemas conseguem interpretar padrões de comportamento e até sugerir músicas ou experiências com base no humor das pessoas. A cidade inteira foi construída para gerar dados constantemente.

E é justamente aí que surgem as maiores preocupações.

Diversas áreas da cidade possuem uma quantidade impressionante de câmeras espalhadas por ruas, cruzamentos, prédios e espaços internos. Algumas interseções chegam a ter múltiplas câmeras monitorando tudo ao mesmo tempo.

Toda essa infraestrutura alimenta um sistema chamado AI Vision Engine, desenvolvido para analisar em tempo real o que acontece dentro da cidade.

O detalhe mais inquietante é que a inteligência artificial consegue acompanhar pessoas de uma câmera para outra usando padrões de roupa, movimentos e comportamento — sem depender necessariamente de reconhecimento facial tradicional.

Em uma das demonstrações apresentadas pela Toyota, o sistema foi capaz de identificar comportamentos suspeitos ligados a furtos dentro de lojas. Tecnicamente, a empresa afirma que os moradores mantêm controle sobre os próprios dados através de um sistema de consentimento chamado Data Fabric.

Na prática, porém, quase todos aceitaram compartilhar praticamente tudo.

O experimento da Toyota levanta uma questão maior sobre o futuro das cidades

Segundo relatos de visitantes que tiveram acesso à Woven City, cerca de 98% dos moradores permitiram inclusive a presença de robôs equipados com câmeras dentro das próprias residências.

Claro que existe um detalhe importante: os habitantes atuais foram selecionados justamente por terem perfil altamente tecnológico e por aceitarem participar conscientemente do experimento urbano.

Isso não significa necessariamente que o restante da população aceitaria viver da mesma maneira.

Enquanto a cidade cresce, a Toyota também acelera outro projeto ambicioso: desenvolver sua própria inteligência artificial sem depender completamente das gigantes do setor tecnológico. Um dos exemplos mais curiosos dessa estratégia já está sendo utilizado internamente pela empresa: uma IA treinada para replicar a voz, o pensamento e o estilo de liderança de Akio Toyoda, antigo CEO da companhia.

Sim, basicamente um “clone digital” corporativo.

Mesmo ainda pequena, a Woven City já funciona como um vislumbre bastante realista de como algumas cidades do futuro podem operar. Mais automação, mais sensores, mais inteligência artificial… e também muito mais coleta de dados.

O projeto deixa uma questão difícil no ar.

Talvez cidades hiperautomatizadas realmente consigam oferecer conforto, eficiência e segurança em níveis inéditos. Mas para que tudo isso funcione, será necessário monitorar quase cada movimento das pessoas em tempo real.

E talvez o verdadeiro preço dessa comodidade tecnológica não seja financeiro.

Talvez seja a quantidade de privacidade que estaremos dispostos a entregar para viver dentro dela.

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