Terminar um treino com a camiseta encharcada pode dar a sensação de missão cumprida. Afinal, quanto mais suor, maior deve ter sido o esforço — e melhores os resultados. A fisiologia, porém, é um pouco mais complicada. Suar durante exercícios intensos é uma resposta completamente normal e fundamental para evitar o superaquecimento. Mas a quantidade produzida varia enormemente entre pessoas e não deve ser usada isoladamente para determinar se um treino foi realmente eficiente.
Por que começamos a suar durante o exercício?

Quando os músculos trabalham, parte da energia utilizada acaba sendo transformada em calor. Conforme a temperatura corporal aumenta, o organismo precisa encontrar uma maneira de dissipar esse excesso.
É aí que entram as glândulas sudoríparas.
Elas liberam principalmente água e eletrólitos sobre a superfície da pele. Quando esse líquido evapora, remove calor do corpo e ajuda a manter a temperatura interna dentro de limites seguros.
Em entrevista ao Mundo Deportivo, o treinador Arnau Lloret explicou que essa resposta mostra que o organismo está reagindo ao esforço e alcançando uma intensidade capaz de produzir adaptações físicas.
Existe fundamento fisiológico nessa relação. Pesquisas mostram que treinamento aeróbico e aclimatação ao calor podem modificar a resposta de transpiração do organismo.
Uma revisão científica sobre os fatores que controlam a transpiração concluiu que melhorias no condicionamento aeróbico estão associadas a mudanças positivas na resposta das glândulas sudoríparas.
Mas isso não significa que mais suor seja automaticamente sinônimo de melhor treino.
Suar mais não significa que você queimou mais calorias
Duas pessoas podem fazer exatamente o mesmo exercício e terminar em condições completamente diferentes.
Uma pode estar com a roupa encharcada enquanto a outra apresenta relativamente pouco suor.
Isso acontece porque a transpiração depende de diversos fatores: temperatura e umidade do ambiente, intensidade do exercício, nível de condicionamento, aclimatação ao calor, características individuais e até a quantidade de roupa utilizada.
A literatura científica mostra, inclusive, que pessoas adaptadas a ambientes quentes podem começar a transpirar mais cedo e aumentar sua capacidade de produzir suor.
Um estudo sobre aclimatação ao calor encontrou aumento da taxa de transpiração corporal depois de dez dias de exercícios realizados em ambiente quente.
Nesse caso, produzir mais suor representa uma adaptação destinada a resfriar o corpo com maior eficiência.
Não significa necessariamente que aquela pessoa esteja fazendo mais esforço do que alguém que transpira menos.
E existe outro detalhe importante: perder peso imediatamente depois de um treino muito suado não significa ter eliminado aquela quantidade de gordura.
Grande parte dessa diferença é simplesmente água.
O suor não é um sistema de “detox”
Outro mito frequente é que transpirar serviria para eliminar toxinas acumuladas pelo organismo.
Embora pequenas quantidades de determinadas substâncias possam aparecer no suor, essa não é sua principal função.
O organismo possui sistemas muito mais importantes para processar e eliminar resíduos, especialmente fígado e rins.
A função central da transpiração durante o exercício é térmica: permitir que o corpo libere calor.
Por isso, provocar suor artificialmente usando mais roupas ou treinando deliberadamente em ambientes excessivamente quentes não transforma automaticamente a sessão em um exercício melhor.
Pelo contrário, pode aumentar a perda de líquidos e o estresse térmico.
Quanto mais você sua, mais atenção precisa dar à hidratação

O outro lado desse mecanismo eficiente de refrigeração é que o organismo perde água e eletrólitos.
E essa perda pode variar bastante.
O American College of Sports Medicine destaca que as taxas de transpiração apresentam grande variação entre indivíduos e recomenda que estratégias de hidratação sejam adaptadas às necessidades de cada pessoa.
Durante exercícios prolongados, perder água demais pode prejudicar o desempenho e aumentar o estresse fisiológico.
Por isso, a orientação não é simplesmente beber uma quantidade fixa para todo mundo.
Uma maneira utilizada no esporte para estimar a própria taxa de suor é comparar o peso corporal antes e depois de uma sessão, levando em consideração também os líquidos ingeridos durante o exercício.
Em atividades longas, intensas ou realizadas no calor, a reposição de eletrólitos também pode se tornar relevante.
Então como saber se o treino realmente foi bom?
O suor pode mostrar que seu sistema de termorregulação está trabalhando, mas não funciona como um placar de eficiência do exercício.
Indicadores mais úteis dependem do objetivo.
Em atividades aeróbicas, intensidade, frequência cardíaca, duração, ritmo e evolução do condicionamento fornecem informações melhores. No treinamento de força, carga, repetições, técnica, volume e progressão ao longo das semanas dizem muito mais do que a quantidade de suor no chão.
Existe até uma aparente contradição interessante: conforme alguém melhora seu condicionamento e se adapta ao calor, o organismo pode se tornar mais eficiente em começar a suar e dissipar calor.
Portanto, não há motivo para se preocupar simplesmente porque você transpira bastante durante o exercício.
Só não vale transformar a camiseta molhada em certificado de treino bem-feito.
O suor mostra que o corpo está tentando manter sua temperatura sob controle. Os resultados do exercício aparecem em outro lugar: na adaptação que acontece depois de semanas e meses de treinamento consistente.