O Universo esconde verdadeiras fábricas de estrelas atrás de enormes cortinas de poeira cósmica. Agora, imagens obtidas pelos telescópios espaciais James Webb e Hubble estão revelando detalhes desses ambientes que antes eram difíceis de observar. Entre as descobertas estão uma galáxia com o núcleo girado em uma direção inesperada, bolhas gigantescas esculpidas por estrelas e regiões de formação estelar a bilhões de anos-luz da Terra.
Uma galáxia com o coração girado em 90 graus

Uma das estruturas mais intrigantes é a galáxia NGC 4698, localizada a aproximadamente 55 milhões de anos-luz da Terra.
À primeira vista, ela parece uma galáxia espiral relativamente comum, com estrelas distribuídas ao redor de uma região central brilhante.
Entretanto, observações detalhadas revelaram uma característica incomum: seu núcleo apresenta uma orientação aproximadamente perpendicular à do disco principal.
Essa configuração sugere que a galáxia passou por uma história dinâmica complexa, possivelmente envolvendo interações ou fusões com outras galáxias.
Esses encontros podem redistribuir gás e alterar a organização das estrelas, criando condições que influenciam a evolução galáctica.
A NGC 4698 também abriga um buraco negro supermassivo em sua região central.
Embora buracos negros possam influenciar o gás ao redor, a formação de novas estrelas depende principalmente do comportamento das nuvens frias de gás e poeira.
A galáxia representa, portanto, uma oportunidade para compreender como estruturas aparentemente estáveis podem esconder um passado turbulento.
Hubble fotografa uma bolha gigantesca criada por estrelas
e é a nebulosa LHA 120-N44, conhecida simplesmente como N44, localizada na Grande Nuvem de Magalhães.
Essa galáxia vizinha da Via Láctea fica a aproximadamente 160 mil anos-luz da Terra.
As imagens mostram uma enorme cavidade cercada por gás e poeira, formando uma estrutura que os astrônomos chamam de superbolha.
A região central mede aproximadamente 210 por 140 anos-luz.
Segundo a NASA, que divulgou uma nova imagem da nebulosa N44 em setembro de 2026, essa cavidade foi formada pela ação combinada de ventos estelares intensos e explosões de supernovas.
As estrelas massivas expulsam matéria para o espaço, enquanto suas explosões podem comprimir o gás nas regiões próximas.
Em determinadas condições, essa compressão favorece o nascimento de novas estrelas.
O resultado é um ambiente em constante transformação, no qual gerações de estrelas modificam as condições para a formação das seguintes.
James Webb atravessa nuvens de poeira e revela estrelas recém-nascidas
Uma das maiores vantagens do telescópio James Webb é sua capacidade de observar o Universo em comprimentos de onda infravermelhos.
Enquanto a luz visível pode ser bloqueada por nuvens densas de poeira, parte da radiação infravermelha consegue atravessar essas regiões.
Isso permite identificar protoestrelas, objetos que ainda estão acumulando matéria antes de iniciar a fusão estável de hidrogênio em seus núcleos.
Em julho de 2026, a NASA divulgou imagens da região FS Tau, localizada a aproximadamente 450 anos-luz da Terra.
As observações revelaram estrelas jovens e estruturas anteriormente escondidas pela poeira. Algumas dessas protoestrelas possuem entre um e três milhões de anos, idade extremamente pequena em termos astronômicos.
Uma lente gravitacional revela galáxias do Universo primitivo
O telescópio Webb também registrou imagens impressionantes do aglomerado de galáxias MACS J0454.1-0300.
Sua enorme massa provoca um fenômeno previsto pela teoria da relatividade geral de Einstein: a lente gravitacional.
Nesse processo, a gravidade desvia a trajetória da luz de objetos muito mais distantes, ampliando e distorcendo suas imagens.
É como observar o Universo através de uma lupa natural.
As imagens divulgadas em setembro de 2026 mostram galáxias esticadas em arcos luminosos e, em alguns casos, repetidas diversas vezes.
Segundo a Agência Espacial Europeia, responsável pela divulgação detalhada dessas observações, o Webb conseguiu identificar regiões de formação estelar em galáxias observadas quando o Universo tinha menos de dois bilhões de anos.
Algumas estruturas aparecem ampliadas mais de 300 vezes, permitindo estudar regiões com apenas cinco anos-luz de extensão.
Esses detalhes seriam extremamente difíceis de observar sem a amplificação gravitacional.
Por que estudar o nascimento das estrelas é tão importante?
As estrelas desempenham um papel fundamental na evolução do Universo.
Em seus interiores, processos nucleares produzem elementos químicos que posteriormente podem ser espalhados pelo espaço.
Quando estrelas massivas chegam ao fim de suas vidas, explosões de supernovas enriquecem o meio interestelar com parte desses elementos.
Esse material pode participar da formação de novas estrelas, planetas e sistemas planetários.
Investigar os berçários estelares permite compreender como diferentes ambientes influenciam o nascimento das estrelas e a evolução das galáxias.
O que as novas imagens revelam sobre o Universo?
As observações mostram que o nascimento das estrelas não acontece de uma única maneira.
Algumas surgem em nuvens densas e relativamente tranquilas. Outras aparecem em regiões agitadas por explosões, ventos estelares ou interações entre galáxias.
O Hubble permite observar estruturas de gás e estrelas em diferentes faixas de luz, enquanto o Webb revela detalhes infravermelhos anteriormente inacessíveis.
Juntos, os telescópios oferecem uma visão mais completa dos processos que transformam gás e poeira em novos sistemas estelares.
E cada imagem representa mais do que uma paisagem espetacular: é uma oportunidade de compreender como o Universo construiu, ao longo de bilhões de anos, as estrelas que hoje iluminam o céu.