A Terra não é plana, mas também está longe de ser uma esfera perfeita. A rotação constante faz com que nosso planeta tenha uma forma ligeiramente achatada nos polos e mais larga na região do equador. E, de tempos em tempos, algo ainda mais estranho pode acontecer: a superfície sólida inteira pode mudar de orientação em relação ao eixo de rotação.
Visto de fora, é quase como se o planeta estivesse lentamente tombando para o lado.
Esse fenômeno é conhecido como deriva polar verdadeira, ou true polar wander (TPW). Um novo estudo publicado na revista Science sugere que episódios relativamente rápidos desse processo ocorreram várias vezes na história da Terra, inclusive durante o Jurássico e o Cretáceo, quando os dinossauros dominavam o planeta.
E as consequências podem ter sido maiores do que se imaginava.
A Terra pode mudar de posição sem alterar seu eixo de rotação
A deriva polar verdadeira não significa que o eixo de rotação da Terra simplesmente muda de direção no espaço.
O que acontece é diferente.
Nosso planeta tenta manter sua massa distribuída de maneira estável enquanto gira. Mas processos geológicos na superfície e no manto podem alterar essa distribuição.
Quando surge um desequilíbrio suficientemente grande, toda a parte sólida do planeta pode se reorientar em relação ao eixo de rotação para recuperar uma configuração mais estável.
Continentes e polos geográficos mudam de posição nesse processo.
É diferente da tectônica de placas, na qual continentes individuais se deslocam lentamente sobre a superfície. Na deriva polar verdadeira, é a orientação da Terra sólida como um todo que muda em relação ao eixo de rotação.
Mesmo os episódios considerados “rápidos” acontecem ao longo de milhões de anos.
Cientistas encontraram sinais na variação do nível dos mares
Identificar esses eventos ocorridos centenas de milhões de anos atrás é extremamente difícil.
Tradicionalmente, cientistas recorrem a registros paleomagnéticos preservados nas rochas. Eles permitem reconstruir aproximadamente como o campo magnético terrestre estava orientado quando determinados materiais se formaram.
O problema é separar os sinais produzidos pela tectônica de placas daqueles provocados pela deriva polar verdadeira.
Por isso, diferentes estudos chegaram a interpretações bastante distintas sobre a intensidade desses eventos.
A nova pesquisa adotou uma estratégia diferente.
Em vez de depender principalmente do magnetismo das rochas, os cientistas analisaram extensos registros de áreas continentais que foram inundadas pelos oceanos ao longo dos últimos 320 milhões de anos.
A ideia é simples: se a Terra sólida muda de orientação, a distribuição da água sobre sua superfície também precisa se reorganizar.
O oceano entrega pistas sobre o movimento do planeta
Durante uma mudança na orientação da Terra, tanto a litosfera quanto a hidrosfera precisam responder à nova configuração.
Mas existe uma diferença importante.
A parte sólida do planeta é sustentada pelo manto extremamente viscoso e responde de maneira diferente. Os oceanos, por outro lado, conseguem redistribuir sua massa com muito mais facilidade.
Isso pode provocar alterações significativas na distribuição das regiões que ficam acima ou abaixo do nível do mar.
Ao analisar registros de inundação continental em intervalos de aproximadamente 10 milhões de anos, os pesquisadores encontraram quatro períodos com sinais particularmente fortes de deriva polar verdadeira relativamente rápida.
Um deles aconteceu entre 100 e 90 milhões de anos atrás, durante o Cretáceo.
Outro ocorreu entre aproximadamente 150 e 140 milhões de anos atrás, na transição do Jurássico para o Cretáceo.
Um terceiro episódio foi identificado entre 200 e 190 milhões de anos atrás, no início do Jurássico.
O mais recente teria ocorrido muito depois do desaparecimento dos dinossauros, entre aproximadamente 30 e 20 milhões de anos atrás, entre o Oligoceno e o Mioceno.
O nível do mar não mudou igualmente em todos os lugares
Os efeitos desses movimentos não seriam uniformes em todo o planeta.
Segundo os pesquisadores, as maiores alterações relativas no nível do mar aparecem em regiões localizadas mais longe de determinados eixos associados à reorientação da Terra.
Isso significa que algumas áreas poderiam experimentar avanço significativo dos oceanos sobre os continentes, enquanto outras apresentariam mudanças menores ou até o movimento contrário.
O processo poderia, portanto, redesenhar costas e alterar a distribuição de mares rasos em escala continental.
Os resultados encontrados para determinados períodos do Cretáceo também são compatíveis com estimativas obtidas anteriormente por outros métodos.
Os sinais encontrados no Jurássico apresentam correspondência com pesquisas paleomagnéticas anteriores, embora os autores afirmem que novas análises serão necessárias para confirmar os detalhes desses episódios.
Dinossauros viveram em um planeta que estava se reorientando
As possíveis consequências vão além do nível dos oceanos.
Se continentes inteiros mudam de latitude em relação ao eixo de rotação, eles também podem atravessar diferentes zonas climáticas.
Isso potencialmente altera temperaturas, chuvas, ecossistemas e a distribuição de espécies.
Os pesquisadores destacam que a deriva polar verdadeira pode ter influência sobre o clima, a biosfera e até processos relacionados ao geodínamo — o movimento do material no núcleo externo responsável pela geração do campo magnético terrestre.
O novo estudo não determina exatamente como esses episódios afetaram os organismos que viviam naquela época.
Mas, se as conclusões estiverem corretas, dinossauros e outras espécies atravessaram períodos nos quais um processo geológico pouco considerado até agora estava lentamente reorganizando o planeta sob seus pés.
Não foi uma inclinação repentina capaz de derrubar tudo de um lado para outro. Foram movimentos que levaram milhões de anos.
Ainda assim, em escala geológica, a Terra aparentemente mudou de orientação várias vezes — e os oceanos guardaram os sinais desses enormes movimentos até hoje.