Uma conferência com efeito imediato
Em uma coletiva recente, Trump afirmou que gestantes deveriam evitar o uso de paracetamol, alegando que o medicamento aumentaria as chances de autismo nos filhos. Segundo ele, a FDA (agência reguladora dos EUA) em breve exigirá avisos mais rigorosos nos rótulos de marcas como Tylenol. O ex-presidente citou ainda comunidades como os amish e países como Cuba, associando sua baixa taxa de uso do fármaco a supostos índices menores de autismo. As comparações, porém, carecem de qualquer base científica sólida.
Além disso, o anúncio veio acompanhado da aprovação da leucovorina, um derivado do folato, como possível tratamento para casos específicos de autismo. Essa medida, embora interessante do ponto de vista médico, acabou ofuscada pela polêmica em torno do paracetamol.
O que diz a ciência
A relação entre paracetamol e autismo tem sido objeto de alguns estudos observacionais, mas a evidência é frágil e cheia de nuances. Pesquisas em larga escala — como a realizada na Suécia, envolvendo mais de 2,4 milhões de nascimentos — não encontraram qualquer indício de causalidade. O que existe são associações estatísticas frágeis, insuficientes para afirmar que o medicamento seja responsável por aumentar riscos.
Em termos científicos, a conclusão é clara: correlação não significa causa. E no caso específico, os dados disponíveis não sustentam a hipótese apresentada por Trump.

Reações médicas
As críticas da comunidade médica foram rápidas. O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas classificou a declaração como irresponsável, ressaltando que o uso controlado de paracetamol continua sendo considerado seguro durante a gestação. Segundo especialistas, evitar o medicamento sem necessidade pode gerar riscos maiores, já que febre alta ou dores intensas também representam perigo para o desenvolvimento fetal.
Médicos lembram ainda que o autismo é um transtorno multifatorial, com causas genéticas e ambientais complexas, e não pode ser reduzido à exposição a um medicamento comum. A narrativa apresentada por Trump, portanto, simplifica demais uma realidade extremamente delicada.
O choque entre ciência e política
Esta não é a primeira vez que Trump relaciona temas de saúde pública a afirmações polêmicas sem base científica robusta. Anos atrás, ele já havia sugerido uma conexão inexistente entre vacinas infantis e autismo. Agora, repete o padrão com o paracetamol: declarações categóricas, evidências frágeis e um forte impacto político.
Enquanto isso, a ciência pede cautela e responsabilidade na comunicação. Não há provas de que o paracetamol cause autismo, mas há consenso sobre a necessidade de proteger a saúde pública de discursos que podem confundir e alarmar sem motivo.