Você pode (com razão) achar que o setor de seguros é um golpe, mas a Uber está falando literalmente. Segundo a Bloomberg, a empresa de transporte por aplicativo entrou com um processo por crime organizado (racketeering), alegando uma vasta conspiração criminosa envolvendo escritórios de advocacia, médicos e clínicas de gerenciamento da dor, que teriam encenado acidentes de carro e lesões falsas para obter indenizações de seguros pagos pela Uber.
Veja como a Uber narra a situação, conforme detalhado em um processo apresentado ao Tribunal Distrital dos Estados Unidos, no Distrito Leste de Nova York: Desde 2019, um grupo de profissionais jurídicos e médicos em Nova York estaria mirando pessoas envolvidas em acidentes de carro. Eles recrutam vítimas de “colisões supostamente leves ou reais”, exageram as alegações sobre as lesões sofridas e submetem essas pessoas a cirurgias “desnecessárias”, “invasivas” e “dolorosas” — cujos custos acabam recaindo sobre a Uber.
De acordo com a empresa, muitas das condições médicas são “fictícias, exageradas ou pré-existentes” e alguns dos procedimentos realizados para tratar essas lesões são extremos, incluindo até “fusões espinhais”.
O estado de Nova York exige que a Uber e outros aplicativos de transporte mantenham seguro de responsabilidade civil para seus motoristas, cobrindo qualquer lesão que ocorra com motoristas ou passageiros durante uma corrida. Além disso, em Nova York, as regulamentações exigem que os motoristas mantenham um seguro pessoal de acidentes com cobertura mínima de US$ 200 mil.
Nova York é um estado com sistema de seguro no-fault (sem culpa), o que significa que o seguro deve pagar as despesas médicas, independentemente de quem tenha causado o acidente. A Uber alega que os escritórios de advocacia e médicos envolvidos estavam se aproveitando dessa regra para fraudar o sistema.
A Uber não é a primeira empresa a levantar suspeitas sobre fraudes em seguros em Nova York. A American Transit Insurance Co. (ATIC), a maior seguradora de táxis do estado, abriu um processo semelhante no ano passado, alegando que médicos fraudaram a empresa em US$ 450 milhões. A ação contém muitas das mesmas acusações feitas pela Uber, incluindo que médicos estariam deliberadamente exagerando diagnósticos, supertratando pacientes e superfaturando procedimentos para lucrar com as apólices de seguro.
Recentemente, a governadora de Nova York, Kathy Hochul, propôs várias mudanças nas normas de operação do setor de seguros no estado — em grande parte devido à pressão da ATIC, que enfrenta sérios problemas de solvência. As propostas incluem aumentar os recursos destinados à investigação de fraudes de seguros, como as que tanto ATIC quanto Uber alegam sofrer.
Enquanto isso, a Uber conseguiu barrar uma proposta que obrigaria os motoristas de aplicativos em Nova York a contratarem seguros com “seguradoras solventes e responsáveis”. Em vez disso, o texto foi alterado para exigir que as seguradoras fossem apenas “empresas autorizadas a operar” no estado de Nova York. Tire suas próprias conclusões sobre essa mudança.