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Ciência

Um Gene Canino Pode Explicar a Obesidade Humana? Descoberta Científica Lança Luz Sobre o Problema

Pesquisadores da Universidade de Cambridge identificaram uma ligação genética entre a obesidade em cães da raça labrador retriever e o sobrepeso em humanos. O estudo, publicado na revista Science, revela que uma variante do gene DENND1B, associada ao apetite e ao metabolismo, pode influenciar tanto os cães quanto seus donos. Essa descoberta reforça a ideia de que a obesidade não é apenas resultado de hábitos alimentares, mas também de predisposições genéticas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O Que a Obesidade dos Labradores Pode Revelar Sobre os Humanos?

Os labradores retrievers estão entre as raças de cães mais propensas à obesidade, e esse fato despertou o interesse dos cientistas. Pesquisadores britânicos analisaram o DNA de 241 labradores e descobriram que a presença de certas variantes genéticas pode aumentar a predisposição ao ganho de peso.

Surpreendentemente, esses mesmos genes foram identificados em humanos com tendência ao sobrepeso. Isso sugere que fatores genéticos desempenham um papel significativo na obesidade, tanto em cães quanto em pessoas.

A líder do estudo, Eleanor Raffan, enfatizou que essa descoberta derruba preconceitos sobre a obesidade:
“Dono de cachorro magro não é moralmente superior. O mesmo vale para pessoas magras”, destacou Raffan, reforçando que a obesidade tem causas complexas e não pode ser reduzida a simples escolhas individuais.

A Influência Genética na Obesidade

A obesidade é uma condição multifatorial, resultante da interação entre genética e ambiente. Os pesquisadores identificaram que o gene DENND1B afeta o funcionamento do receptor de melanocortina 4 (MC4R), que regula o apetite e o equilíbrio energético no corpo.

Além do DENND1B, outros quatro genes também foram associados ao ganho de peso, embora com menor influência. Esses achados ajudam a explicar por que algumas pessoas e cães parecem ganhar peso com mais facilidade do que outros, mesmo em condições ambientais semelhantes.

A coautora do estudo, Natalie Wallis, explicou:
“Os cães com maior risco genético de obesidade demonstraram maior interesse por comida, um comportamento semelhante ao observado em humanos com predisposição ao sobrepeso.”

O Crescente Problema da Obesidade

A obesidade é uma preocupação global, tanto para humanos quanto para animais de estimação. Estudos indicam que entre 40% e 60% dos cães domésticos estão acima do peso ou são obesos, o que aumenta o risco de doenças metabólicas e problemas articulares.

Nos humanos, a obesidade está ligada a condições graves, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e outros distúrbios metabólicos. Compreender como fatores genéticos afetam o controle de peso pode levar a estratégias mais eficazes para combater essa epidemia.

O Que o Estudo Descobriu Sobre a Relação Entre Gênes e Peso?

Os pesquisadores realizaram uma análise do genoma completo (GWAS) nos labradores britânicos, avaliando seu peso, interesse por comida e carga genética. Após identificar as variantes genéticas associadas ao ganho de peso nos cães, os cientistas buscaram essas mesmas regiões no genoma humano.

A análise revelou que o gene DENND1B afeta diretamente o receptor MC4R, uma via crucial para a regulação do apetite. Essa descoberta preenche uma lacuna importante nos estudos sobre obesidade, que já haviam identificado mais de 1.000 regiões genéticas associadas ao ganho de peso, mas sem compreender totalmente seus efeitos biológicos.

Segundo a coautora do estudo, Alyce McClellan,
“Esses genes não são alvos imediatos para medicamentos para perda de peso, pois regulam outros processos biológicos importantes. No entanto, seu impacto na obesidade é significativo.”

Alimentação e Exercício: Estratégias Para Reduzir o Impacto Genético

Um dos achados mais importantes do estudo foi que os labradores com a variante do DENND1B tinham cerca de 7% mais gordura corporal do que aqueles sem a mutação. Isso reforça a ideia de que a predisposição genética pode dificultar a manutenção do peso em um ambiente de fácil acesso a alimentos.

A doutora Raffan destacou:
“Se você tem um alto risco genético de obesidade, será mais difícil evitar o ganho de peso em um ambiente onde a comida está sempre disponível.”

Ainda assim, a pesquisa demonstrou que dieta equilibrada e atividade física podem mitigar o impacto do risco genético, embora não o eliminem completamente.

Os cães com maior propensão à obesidade precisaram de esforço extra para manter um peso saudável em comparação com aqueles sem a mutação genética. Isso sugere que, em humanos, estratégias personalizadas podem ser necessárias para combater o sobrepeso de forma eficaz.

Cães Como Modelos Para Estudo da Obesidade Humana

O estudo sugere que os cães podem ser modelos mais eficazes do que os ratos para entender a obesidade humana. Segundo o pesquisador argentino Marcos Mayer, do Conicet,
“Os cães vivem em um ambiente obesogênico semelhante ao dos humanos, o que não ocorre com os ratos de laboratório. Isso torna os cães um modelo mais realista para estudar a relação entre genes e obesidade em um ambiente cotidiano.”

Mayer também apontou que os cães com menor risco genético de obesidade conseguem manter um peso estável mesmo quando expostos a um ambiente com abundância de comida, enquanto os cães com alto risco genético desenvolvem obesidade mais facilmente. Esse comportamento reflete o que acontece com muitas pessoas, ajudando a entender a complexa interação entre genética e ambiente.

O Futuro da Pesquisa Sobre a Obesidade

A pesquisa da Universidade de Cambridge contou com o apoio de instituições como Wellcome, BBSRC, Dogs Trust, Morris Animal Foundation e o Instituto Pasteur de Lille. Embora os genes identificados não sejam alvos imediatos para medicamentos contra a obesidade, seu estudo pode abrir portas para novas estratégias terapêuticas no futuro.

A principal conclusão dos cientistas é que a obesidade não pode ser reduzida apenas a força de vontade ou hábitos alimentares, pois há um forte componente genético envolvido. Com mais estudos nessa área, espera-se desenvolver abordagens mais eficazes para ajudar tanto humanos quanto seus companheiros de quatro patas a manter um peso saudável.

 

Fonte: Infobae

 

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