Produtos “light” e sem açúcar se tornaram aliados de quem busca emagrecer ou controlar a glicose. Entre os ingredientes mais usados está o sorbitol, um tipo de açúcar álcool considerado seguro há décadas. No entanto, uma nova pesquisa científica acende um alerta: em determinadas condições, esse adoçante pode favorecer o acúmulo de gordura no fígado, especialmente quando a microbiota intestinal está desequilibrada.
O papel decisivo das bactérias intestinais
O estudo revelou que a saúde do fígado não depende apenas do que comemos, mas também das bactérias que vivem no intestino. Quando o organismo possui microrganismos capazes de degradar o sorbitol, ele é processado corretamente. Porém, na ausência dessas bactérias específicas, o composto pode atravessar o sistema digestivo intacto e chegar ao fígado.
Ao alcançar o órgão, o sorbitol passa a estimular o acúmulo de gordura, favorecendo o desenvolvimento da chamada doença hepática gordurosa metabólica, condição comum em pessoas com obesidade, diabetes e distúrbios metabólicos.
Como os cientistas testaram essa relação
Para entender esse mecanismo, os pesquisadores utilizaram peixes-zebra, modelos amplamente usados em estudos metabólicos. Primeiro, eliminaram a microbiota dos animais com antibióticos. Em apenas uma semana sem bactérias, os peixes já começaram a desenvolver acúmulo de gordura no fígado, mesmo com alimentação normal.
Em seguida, os cientistas descobriram que parte da glicose ingerida se transforma naturalmente em sorbitol dentro do intestino. Sem as bactérias responsáveis por degradá-lo, o composto acaba migrando para o fígado. Quando os pesquisadores adicionaram ainda mais sorbitol à dieta, o problema hepático se agravou.
O quadro só começou a se reverter quando os intestinos foram recolonizados com bactérias específicas capazes de metabolizar o sorbitol, inclusive algumas presentes no intestino humano.
Onde o sorbitol está escondido na dieta
O sorbitol é amplamente usado como adoçante e agente de textura na indústria alimentícia. Ele está presente em chicletes sem açúcar, balas “zero”, geleias dietéticas, doces para diabéticos e vários produtos ultraprocessados. Em alguns casos, pode representar até 95% do conteúdo do produto.
O problema é que muitas pessoas consomem esses alimentos diariamente sem perceber a quantidade de sorbitol ingerida, acreditando que, por serem “light”, não oferecem riscos.
Studying a zebrafish model, researchers have found that gut microbiota can help prevent the buildup of fat in the liver associated with the consumption of sorbitol, a common dietary substitute for sugar.
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— Science Magazine (@ScienceMagazine) November 1, 2025
O que isso pode significar para a saúde
Embora o estudo tenha sido feito em peixes, os cientistas apontam implicações importantes para humanos. A microbiota intestinal parece controlar diretamente como o organismo lida com o sorbitol. Em excesso, e na ausência das bactérias certas, ele pode favorecer o surgimento da gordura no fígado.
Os pesquisadores ressaltam que ainda são necessários estudos em mamíferos e humanos, mas já recomendam cautela, especialmente para pessoas com diabetes, obesidade ou histórico de doença hepática.
Moderação continua sendo a melhor estratégia
A descoberta não significa que o sorbitol deva ser totalmente eliminado da alimentação, mas reforça a importância do consumo moderado e de uma dieta equilibrada. Além disso, manter uma microbiota saudável, com alimentação rica em fibras e alimentos naturais, pode ser uma peça-chave na proteção do fígado.