Um pequeno objeto localizado a cerca de 400 anos-luz da Terra está atravessando a Via Láctea a uma velocidade impressionante. Chamado CWISE J124909.08+362116.0, ou simplesmente CWISE J1249, ele se desloca a aproximadamente 1,6 milhão de quilômetros por hora e pode ter velocidade suficiente para escapar da atração gravitacional da nossa galáxia. O mais intrigante é que os astrônomos ainda não sabem exatamente o que ele é.
Pequeno demais para uma estrela comum

CWISE J1249 foi identificado por cientistas cidadãos participantes do projeto Backyard Worlds: Planet 9, que procura objetos em movimento usando imagens infravermelhas produzidas pelo telescópio espacial WISE, da NASA.
Depois da descoberta inicial, astrônomos recorreram a observações de diferentes telescópios para entender melhor o objeto.
O estudo original publicado no The Astrophysical Journal Letters estimou sua distância em 125 ± 8 parsecs, aproximadamente 408 anos-luz. Sua velocidade no referencial da galáxia foi calculada em 456 ± 27 quilômetros por segundo.
Isso equivale a aproximadamente 1,64 milhão de quilômetros por hora.
Sua massa é igualmente curiosa. CWISE J1249 possui cerca de 8% da massa do Sol, colocando-o justamente em uma região difícil de classificar: ele pode ser uma estrela de massa extremamente baixa ou uma anã marrom relativamente massiva.
Anãs marrons são objetos que se formam de maneira semelhante às estrelas, mas geralmente não possuem massa suficiente para sustentar a fusão de hidrogênio típica das estrelas convencionais.
Ele realmente vai escapar da Via Láctea?

É possível, mas existe uma nuance importante.
A velocidade calculada pelos pesquisadores está próxima da velocidade de escape da Via Láctea na região onde CWISE J1249 se encontra. Por isso, o estudo afirma que sua trajetória sugere que o objeto pode não estar gravitacionalmente preso à nossa galáxia.
A NASA descreveu CWISE J1249 como o primeiro objeto de hipervelocidade descoberto com massa comparável à de uma estrela pequena e afirma que ele se move rápido o suficiente para eventualmente escapar da Via Láctea.
Mas determinar sua trajetória com absoluta precisão depende de conhecer não apenas sua velocidade, mas também o campo gravitacional da galáxia e a quantidade e distribuição de matéria — incluindo matéria escura — existente ao longo do caminho.
O objeto também chama atenção porque está relativamente perto de nós. Outras estrelas de hipervelocidade conhecidas normalmente estão a dezenas de milhares de anos-luz de distância.
Ninguém sabe quem lançou esse objeto a tamanha velocidade
A grande questão agora é descobrir como CWISE J1249 conseguiu acelerar tanto.
No trabalho liderado pelo astrofísico Adam Burgasser, da Universidade da Califórnia em San Diego, os pesquisadores discutem diferentes cenários capazes de explicar sua trajetória.
Uma possibilidade envolve o buraco negro supermassivo Sagitário A*, localizado no centro da Via Láctea. Sistemas estelares que passam perto demais de um buraco negro podem sofrer interações gravitacionais violentas capazes de lançar uma estrela pelo espaço em velocidades enormes.
Mas há um problema: reconstruções preliminares da trajetória de CWISE J1249 não apontam claramente para o centro galáctico.
Outra possibilidade é ainda mais violenta.
Uma supernova pode ter transformado CWISE J1249 em um projétil

CWISE J1249 pode ter integrado um sistema binário junto de uma anã branca.
Nesse cenário, a anã branca teria acumulado material até explodir como uma supernova. A destruição de uma das estrelas poderia liberar sua companheira e lançá-la pelo espaço em altíssima velocidade.
Existe também a possibilidade de uma interação entre três corpos dentro de um aglomerado globular. Se CWISE J1249 tivesse encontrado um sistema envolvendo dois buracos negros, as interações gravitacionais poderiam ter funcionado como uma espécie de estilingue cósmico.
A quarta hipótese é que ele nem sequer tenha nascido originalmente na Via Láctea.
Os pesquisadores consideram que o objeto possa ter pertencido a uma pequena galáxia satélite absorvida pela nossa há bilhões de anos. Sua baixa concentração de elementos mais pesados reforça a ideia de que CWISE J1249 é extremamente antigo.
Um objeto raro que pode revelar uma população escondida
CWISE J1249 é considerado o primeiro objeto de massa muito baixa e hipervelocidade conhecido e também o sistema desse tipo encontrado mais próximo do Sol.
Isso pode transformá-lo em algo mais importante do que apenas uma curiosidade astronômica.
Se outros objetos semelhantes forem encontrados, os astrônomos poderão descobrir uma população até agora praticamente invisível de pequenas estrelas e anãs marrons viajando pelo halo da Via Láctea em velocidades extremas.
E entender de onde elas vieram pode revelar informações sobre explosões de supernovas, aglomerados globulares, buracos negros e até antigas galáxias que foram engolidas pela Via Láctea.
Por enquanto, CWISE J1249 continua sendo um enigma: um objeto no limite entre estrela e anã marrom, viajando a cerca de 1,6 milhão de quilômetros por hora e possivelmente a caminho de deixar nossa galáxia para sempre.