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Ciência

Uma ilha perdeu suas aves e agora está tomada por serpentes e aranhas: um paraíso do Pacífico virou um dos maiores desastres ecológicos do planeta

O que começou com a chegada acidental de uma serpente após a Segunda Guerra Mundial terminou apagando o canto das aves e liberando um exército de milhões de aranhas. Hoje, as florestas de Guam oferecem uma paisagem inquietante: silêncio, teias intermináveis e um ecossistema à beira do colapso.
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Tempo de leitura: 2 minutos

Em uma ilha do Pacífico onde antes reinavam aves coloridas e bosques vibrantes, agora predomina um silêncio estranho, quebrado apenas pelo estalar de galhos e pela presença de milhões de teias. Guam, território dos Estados Unidos, tornou-se palco de um dos maiores desastres ecológicos modernos: serpentes invasoras que eliminaram as aves e uma explosão de aranhas que tomou o lugar delas.

Nos anos que se seguiram ao conflito, a serpente-arborícola-parda (Boiga irregularis) chegou escondida em carregamentos militares. Desde então, sua população disparou para cerca de dois milhões de exemplares. O impacto foi devastador: das 12 espécies de aves que viviam no arquipélago, 10 desapareceram para sempre.

Sem pássaros para controlar insetos ou dispersar sementes, o equilíbrio natural foi quebrado. Cerca de 70% das árvores nativas, que dependem das aves para se reproduzir, hoje lutam para se regenerar. Como resumiu um pesquisador: “as florestas de Guam sofrem com a inquietante ausência do canto dos pássaros”.

Predadores sem limites

Uma ilha perdeu suas aves e agora está tomada por serpentes e aranhas: um paraíso do Pacífico virou um dos maiores desastres ecológicos do planeta
© Unsplash – David Clode.

A voracidade das serpentes foi registrada em cenas quase surreais. Em 2018, uma delas foi vista devorando um porco inteiro durante uma celebração local. Cientistas confirmam que esses animais matam até o que não conseguem engolir: filhotes de aves cobertos de saliva são a prova de um predador que simplesmente não para.

O reinado das aranhas

Uma ilha perdeu suas aves e agora está tomada por serpentes e aranhas: um paraíso do Pacífico virou um dos maiores desastres ecológicos do planeta
© Getty Images.

Sem pássaros para controlar os insetos, outro grupo assumiu o comando: as aranhas. Em Guam, estima-se que existam 733 milhões delas visíveis no solo, cerca de 40 vezes mais do que em ilhas próximas, como Rota ou Saipã. Algumas projeções ampliam esse número para mais de 4 bilhões.

Caminhantes locais dizem que andar sem um bastão é quase impossível: é preciso afastar constantemente as teias de espécies como a aranha-bananera de abdômen amarelo ou a caçadora Heteropoda venatoria.

Tentativas de controle

Os Estados Unidos gastam cerca de US$ 3,8 milhões por ano tentando conter a propagação. Cães farejadores atuam em portos e aeroportos para impedir que a praga se espalhe para outras ilhas. Experimentos inusitados também foram realizados, como o uso de iscas com paracetamol na Base Aérea Andersen, onde a população de serpentes caiu drasticamente graças a uma cerca especial.

Mas replicar esse sucesso no terreno selvático e irregular de Guam é considerado inviável. Enquanto isso, a ilha permanece como um lembrete vivo de como um desequilíbrio ecológico pode transformar completamente um ecossistema em apenas algumas décadas.

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