O noticiário sobre o aquecimento global costuma ser alarmante: secas, enchentes, colapso ambiental. Mas será que essas ameaças representam, de fato, um risco existencial para a humanidade? Ou o perigo está em outra camada — social, psicológica ou política? Para responder a essa pergunta, especialistas de diferentes áreas foram consultados. Suas visões ajudam a entender melhor a complexidade do que está em jogo.
O que significa uma ameaça existencial?
O termo “ameaça existencial” costuma remeter a eventos extremos, como um asteroide gigante destruindo toda a vida na Terra. Para alguns estudiosos, é esse o padrão: algo que literalmente põe fim à existência da humanidade. No entanto, esse conceito tem sido expandido para incluir situações em que a civilização continua existindo, mas de forma severamente comprometida.
Para o pesquisador Seth Baum, do Global Catastrophic Risk Institute, deveríamos focar em “riscos catastróficos globais”, que não necessariamente levam à extinção, mas à perda da qualidade de vida e à desorganização da civilização. Segundo ele, o clima estável do Holoceno — nos últimos 10 mil anos — foi essencial para o surgimento da agricultura e das sociedades humanas. Se esse equilíbrio for quebrado, a própria base da civilização moderna pode ruir.
Extinção ou colapso: o que é mais provável?
O climatologista Michael Mann concorda que a extinção da espécie humana é pouco provável, exceto em cenários extremamente negligentes. No entanto, ele alerta que o colapso da civilização é uma possibilidade real. Já estamos vendo tensões globais relacionadas à escassez de água, comida e espaço, fatores agravados pelas mudanças climáticas.
Ele também destaca a possibilidade de pontos de não retorno, como o colapso da calota de gelo da Antártida ou o enfraquecimento das correntes oceânicas, cujas consequências podem ser catastróficas para certas regiões do planeta. Mesmo sem esses pontos críticos, os impactos já conhecidos — desastres climáticos, insegurança alimentar, colapso de cadeias de suprimentos — são suficientes para testar os limites da nossa capacidade de adaptação.
Realidades já em curso em diferentes partes do mundo
Kennedy Mbeva, do Centro para o Estudo do Risco Existencial da Universidade de Cambridge, destaca que, para muitos povos, as ameaças climáticas já são existenciais. Pequenas ilhas do Pacífico estão à beira do desaparecimento por causa do aumento do nível do mar. Na África, secas severas e inundações frequentes destroem colheitas e meios de subsistência. Em alguns países, os custos com os impactos climáticos chegam a 20% do PIB.
Segundo ele, embora cientistas discutam limites planetários e pontos de inflexão, os efeitos já são visíveis na vida de milhões de pessoas. E isso exige que pensemos o risco não apenas como um conceito técnico, mas como uma realidade vivida no presente.
O impacto psicológico e existencial do clima
A psicóloga Renée Lertzman afirma que a crise climática provoca um tipo distinto de ameaça existencial: aquela que mexe com o nosso senso de propósito e identidade. Para ela, o conhecimento de que estamos alterando profundamente o planeta gera uma crise de significado. O medo do futuro afeta nossa capacidade de imaginar uma vida viável — e nos desafia a repensar quem somos enquanto espécie.
Política, desigualdade e o agravamento da crise
O filósofo Olúfẹ́mi O. Táíwò acrescenta que o risco existencial não está apenas nos fenômenos climáticos, mas em como nossas instituições falham em lidar com eles. Segundo ele, os sistemas políticos atuais muitas vezes priorizam interesses privados em vez do bem comum. Isso torna mais difícil organizar respostas coletivas eficazes.
Ele argumenta que o colapso social não ocorre apenas pela ação do clima, mas pela combinação entre desastre ecológico e políticas injustas. E esse é, talvez, o verdadeiro risco existencial: não apenas a destruição ambiental, mas a incapacidade das sociedades de se protegerem.
Conclusão: um risco real, mas multifacetado
A crise climática pode não acabar com a espécie humana — mas já ameaça profundamente a civilização, o bem-estar coletivo e o futuro de inúmeras comunidades. Seja pelo colapso ecológico, pela injustiça social ou pelo abalo psicológico, o impacto é real e crescente.
Chamar o aquecimento global de ameaça existencial talvez não seja exagero, mas sim um alerta necessário para repensarmos o que significa existir — e o que estamos dispostos a fazer para continuar existindo juntos.