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Ciência

Uma imagem que desafia o tempo: o “tornado cósmico” captado pelo James Webb

O James Webb captou com detalhes inéditos o “tornado cósmico” Herbig-Haro 49/50, revelando os jatos violentos de uma estrela em formação. A imagem também mostra uma galáxia distante, alinhada por acaso, unindo dois tempos cósmicos em uma só visão. Ciência e beleza se encontram nesta janela para o universo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

 A formação de uma estrela raramente é um processo calmo — e o Telescópio Espacial James Webb acaba de provar isso mais uma vez. Em uma impressionante imagem captada recentemente, astrônomos observaram um fenômeno apelidado de “tornado cósmico”, revelando com precisão inédita o nascimento turbulento de uma estrela semelhante ao nosso Sol.

O que é Herbig-Haro 49/50?

O fenômeno registrado é conhecido como Herbig-Haro 49/50, um par de jatos de matéria expelidos por uma protoestrela em formação, localizada na região Camaleão I, a apenas 625 anos-luz da Terra. Essa é uma das zonas de nascimento estelar mais ativas e próximas da Via Láctea.

A protoestrela, ainda em processo de acumular massa, lança jatos de gás a mais de 300 mil km/h. Ao colidir com o material ao redor — poeira e gás interestelar —, esses jatos criam ondas de choque que “fervem” o espaço em sua volta, gerando estruturas ionizadas que emitem luz em diferentes comprimentos de onda.

Tornado cósmico: beleza e informação

Embora já observado em 2006 pelo telescópio Spitzer, o objeto agora aparece com um nível de detalhe revolucionário graças ao James Webb, o telescópio mais potente já lançado. O que antes era uma mancha desfocada no céu, hoje se revela como uma imagem milimetricamente precisa, onde cada filamento e cada arco contam uma parte da história do nascimento estelar.

A imagem combina dados dos instrumentos NIRCam (infravermelho próximo) e MIRI (infravermelho médio), permitindo rastrear moléculas de hidrogênio, monóxido de carbono e até poeira aquecida. As cores visíveis na imagem representam diferentes comprimentos de onda: azul, ciano, verde, laranja e vermelho — cada uma revelando informações sobre temperatura, composição e dinâmica do material.

Uma coincidência cósmica rara

Além do espetáculo visual de Herbig-Haro 49/50, a imagem oferece um bônus: ao fundo, uma galáxia espiral distante aparece perfeitamente alinhada no campo de visão. Embora os dois objetos não tenham relação física, a sobreposição cria uma verdadeira “coreografia cósmica”, contrastando o nascimento de uma estrela jovem com a luz de uma galáxia antiga que viajou milhões de anos até chegar até nós.

Segundo a Agência Espacial Europeia (ESA), essa coincidência nos permite observar duas escalas de tempo cósmico em uma única imagem — uma protoestrela com alguns milhares de anos e uma galáxia cuja luz vem de um passado remoto.

Um laboratório natural de astrofísica

Herbig-Haro 49/50 é classificado como um objeto classe I, o que significa que a estrela ainda está cercada por um disco de gás e poeira, do qual retira massa para continuar seu crescimento. O James Webb permite analisar a química dessa região em detalhes, contribuindo para entender os primeiros estágios da vida estelar.

Os jatos de matéria observados não se comportam de forma uniforme: alguns arcos parecem se desviar, sugerindo oscilações no eixo do jato ou até a presença de uma segunda fonte de emissão. Essa complexidade, antes invisível, agora permite aos cientistas construir modelos tridimensionais da formação estelar.

Nas regiões de impacto, onde os jatos colidem com o meio ao redor, formam-se estruturas em forma de arcos cor de laranja-avermelhado, visíveis como ondas de choque, que aquecem o material e depois o fazem brilhar enquanto ele esfria.

Uma nova era na observação do cosmos

A imagem de Herbig-Haro 49/50 é mais do que bela: é cientificamente valiosa. Ao revelar os detalhes dos jatos, sua composição e seu impacto no ambiente, o telescópio James Webb ajuda a compreender os processos que originam estrelas como o nosso Sol — e, por consequência, os sistemas planetários ao seu redor.

Essas observações demonstram como o nascimento estelar é um processo violento, dinâmico e transformador. Em vez de luz gerada por fusão nuclear, como nas estrelas maduras, aqui o brilho vem das reações provocadas pelos jatos em colisão com a matéria.

 

Fonte: Infobae

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