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Ciência

Vacinas de mRNA contra a COVID-19 podem abrir uma nova era no tratamento do câncer, segundo pesquisa

Um estudo publicado na revista Nature revela que as vacinas de mRNA contra a COVID-19, além de salvar milhões de vidas durante a pandemia, podem despertar o sistema imunológico para combater tumores. Pacientes com câncer que receberam o imunizante da Pfizer ou da Moderna tiveram o dobro da taxa de sobrevivência após três anos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O mesmo avanço biotecnológico que ajudou o mundo a enfrentar a pandemia pode agora transformar o tratamento do câncer. Pesquisadores da Universidade da Flórida descobriram que as vacinas de mRNA desenvolvidas contra o coronavírus parecem estimular o sistema imunológico a atacar células tumorais. O achado, publicado na revista Nature, abre caminho para uma possível revolução na imunoterapia — e reacende a esperança de pacientes com tumores considerados incuráveis.

Uma descoberta acidental com enorme potencial

Tudo começou em 2016, quando a equipe do oncologista pediátrico Elias Sayour estudava o uso de vacinas de mRNA em pacientes com tumores cerebrais. O grupo notou que o mRNA — mesmo quando não estava diretamente relacionado ao câncer — podia treinar o sistema imunológico para destruir células tumorais.

Com base nessa observação, os pesquisadores decidiram investigar se o mesmo efeito poderia ocorrer com as vacinas contra a COVID-19. Para isso, analisaram mais de mil pacientes com câncer de pulmão e melanoma em estágio avançado que recebiam um tipo de imunoterapia chamado inibidor de checkpoint imunológico — tratamento que bloqueia proteínas usadas pelos tumores para “desligar” as células de defesa.

O resultado surpreendeu: os pacientes que haviam recebido as vacinas da Pfizer ou Moderna até 100 dias após o início da imunoterapia tinham mais que o dobro da taxa de sobrevivência em três anos em comparação com os não vacinados. Em alguns casos, especialmente entre tumores “frios” — que normalmente não respondem à imunoterapia — a melhora foi quase cinco vezes maior.

Como o mRNA ativa o sistema imunológico

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© Thanapipat-kulmuangdoan

Para entender o mecanismo, os cientistas recorreram a testes com animais. Eles descobriram que o mRNA das vacinas contra a COVID-19 atua como um alarme, ativando as defesas do corpo de maneira intensa. Essa resposta ajuda a “acordar” o sistema imunológico, fazendo com que ele reconheça e destrua as células cancerígenas, mesmo quando o tumor tenta se esconder.

Combinadas, as vacinas e os inibidores de checkpoint parecem sincronizar as duas frentes de defesa: uma desperta o sistema imunológico e a outra impede que o câncer o desligue. O resultado é uma resposta mais ampla e duradoura contra os tumores.

Tornando tumores “frios” em “quentes”

Nos últimos dez anos, a imunoterapia revolucionou o tratamento do câncer, mas ainda é eficaz apenas para parte dos pacientes. Tumores chamados de “frios” — aqueles que passam despercebidos pelo sistema imunológico — continuam desafiando a medicina.

A nova pesquisa sugere que as vacinas de mRNA podem transformar esses tumores “frios” em “quentes”, isto é, mais visíveis e vulneráveis à ação das defesas do corpo. Se os resultados forem confirmados em testes clínicos, um imunizante amplamente disponível e de baixo custo poderia ampliar os benefícios da imunoterapia a milhões de pacientes que hoje não respondem bem ao tratamento.

O próximo passo: ensaio clínico em larga escala

O grupo de Sayour está agora preparando um ensaio clínico nacional com pacientes de câncer de pulmão. Os participantes serão divididos em dois grupos: um receberá a imunoterapia combinada à vacina de mRNA contra a COVID-19; o outro, apenas a imunoterapia.

O objetivo é verificar se o uso do imunizante deve ser incorporado ao protocolo padrão de tratamento para pacientes oncológicos que recebem inibidores de checkpoint.

Vacinas personalizadas e o futuro da terapia gênica

Imunização
© FreePik

Diferentemente das vacinas convencionais, que previnem infecções, as vacinas terapêuticas contra o câncer treinam o corpo a reconhecer e destruir células tumorais já existentes. Pesquisadores do mundo todo trabalham para desenvolver vacinas personalizadas com mRNA, adaptadas às mutações de cada tumor — um processo caro e demorado.

As vacinas contra a COVID-19, porém, já são produzidas em massa, seguras e acessíveis, o que abre uma oportunidade inédita: aproveitar uma tecnologia globalmente distribuída para fortalecer os tratamentos oncológicos sem os altos custos de personalização.

Um legado inesperado da pandemia

Mais de dois anos após o auge da pandemia, os efeitos do mRNA continuam a surpreender a ciência. O que começou como uma corrida para conter um vírus pode se tornar a próxima grande revolução na oncologia moderna.

“Estamos diante de um exemplo extraordinário de como uma ferramenta criada em um momento de crise global pode se transformar em uma nova arma contra o câncer”, afirmou Elias Sayour. Se os resultados forem confirmados, as vacinas de mRNA poderão integrar a medicina de precisão, ampliando o alcance da imunoterapia e oferecendo esperança a pacientes que antes não tinham opções.

 

[ Fonte: The Conversation ]

 

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