A quase 3 mil quilômetros abaixo da superfície, na fronteira entre o núcleo metálico e o manto rochoso da Terra, pode estar ocorrendo um fenômeno até agora pouco compreendido: o vazamento lento de materiais antigos, guardados desde a formação do planeta. Novas evidências geoquímicas reveladas por cientistas reforçam essa possibilidade e abrem caminho para uma reinterpretação da história interna da Terra.
Sinais antigos vindos das profundezas

O estudo, publicado na revista Nature, analisou rochas vulcânicas do Havaí — uma região onde o magma emerge de profundezas extremas do manto. Essas amostras apresentaram proporções incomuns de elementos como rutenio e tungstênio, cujas assinaturas isotópicas sugerem origem no núcleo terrestre.
Segundo o geoquímico Matthias Willbold, da Universidade de Göttingen, o rutenio é um elemento siderófilo, altamente atraído por metais, e teria migrado quase inteiramente para o núcleo durante a formação da Terra. A presença do isótopo 100 de rutenio nas rochas havaianas indica, portanto, que parte desse material pode estar voltando à superfície.
A combinação que reforça a hipótese
Além do rutenio, os pesquisadores detectaram valores negativos do isótopo tungstênio-182 (µ¹⁸²W), que se forma pela decomposição do háfnio-182 nos primeiros 60 milhões de anos do Sistema Solar. Essa assinatura indica que o material analisado tem origem extremamente primitiva, datando dos primeiros estágios da formação planetária.
A presença combinada de rutenio enriquecido e tungstênio-182 com valores negativos nunca havia sido registrada com tanta clareza. De acordo com o estudo, bastaria que apenas 0,25% do material do núcleo tivesse sido incorporado ao manto para produzir as proporções detectadas nas rochas.
Outras pistas em locais distantes
Esses achados se somam a estudos anteriores. Em 2023, pesquisadores do Instituto Oceanográfico Woods Hole e do Instituto de Tecnologia da Califórnia identificaram concentrações recordes de hélio-3 em rochas da Ilha de Baffin, no Ártico canadense — uma proporção 70 vezes maior que a presente na atmosfera.
Esse gás nobre, raro na superfície, teria sido aprisionado nas profundezas do planeta desde sua formação. As proporções de outros elementos, como neônio, estrôncio e neodímio, reforçaram a tese de que esses materiais não vieram da atmosfera nem de processos secundários, mas de fontes profundas e primitivas.
Como o núcleo pode estar vazando
A hipótese dos pesquisadores é que a cristalização de óxidos metálicos no núcleo externo, rico em oxigênio, tenha criado canais para a migração desses elementos. Durante o resfriamento da Terra, esses óxidos teriam se acumulado na base do manto, iniciando um lento vazamento químico.
Esse processo seria extremamente gradual — ocorrendo ao longo de milhões de anos — mas constante. Ao contrário do hélio, que se perde facilmente no espaço, o rutenio tem um comportamento mais estável, o que o torna um marcador ideal para rastrear interações entre núcleo e manto.
Uma nova forma de ler o passado da Terra
Segundo Forrest Horton, pesquisador do Woods Hole Oceanographic Institution, o novo conjunto de dados pode se tornar um marco para a geogeoquímica. A força dessa evidência está na consistência dos resultados obtidos em diferentes laboratórios, regiões e elementos.
As rochas do Havaí, da Islândia e de Baffin parecem compartilhar uma assinatura comum, que aponta para o núcleo como origem. E embora outros elementos, como o ósmio, não apresentem alterações visíveis, os modelos sugerem que o tungstênio e o hélio podem migrar do núcleo de forma independente.
Um canal direto para o coração do planeta
Até recentemente, acreditava-se que núcleo e manto interagiam apenas de forma mecânica — por calor ou ondas sísmicas. Agora, as evidências apontam para uma conexão química real, uma espécie de “fuga” que permite acessar materiais que, de outra forma, seriam inalcançáveis.
Esse novo entendimento pode mudar como interpretamos a história da Terra — e até como analisamos outros planetas rochosos do Sistema Solar. Cada erupção vulcânica pode carregar em suas rochas não apenas minerais, mas fragmentos de um passado cósmico, guardado desde os primórdios do planeta.
[ Fonte: Infobae ]