Durante anos, a automação foi apresentada como o caminho mais rápido para reduzir custos e aumentar a produtividade das grandes empresas. A Walmart decidiu levar essa promessa a uma escala gigantesca, investindo bilhões de dólares em robôs capazes de movimentar mercadorias sem intervenção humana. Entretanto, depois de uma década de desenvolvimento, a varejista americana descobriu que tarefas consideradas simples para seus funcionários podem representar desafios enormes para as máquinas.
A batalha bilionária da Walmart para automatizar seus depósitos
A Walmart, uma das maiores redes varejistas do mundo, está conduzindo uma transformação tecnológica que envolve aproximadamente 200 instalações logísticas nos Estados Unidos.
O objetivo é substituir parte do trabalho manual por sistemas automatizados capazes de descarregar, organizar, armazenar e transportar mercadorias com maior velocidade e precisão.
Atualmente, mais de 140 mil trabalhadores participam das operações dos depósitos da empresa. Alguns chegam a caminhar 20 mil passos durante um único turno, movimentando produtos entre caminhões, prateleiras e áreas de distribuição.
A expectativa da companhia é reduzir o esforço físico, aumentar a produtividade e diminuir os custos operacionais.
Entretanto, uma investigação publicada pelo The Wall Street Journal revelou que o projeto enfrenta dificuldades técnicas e financeiras que tornam sua implementação muito mais complexa do que o previsto.
Robôs apresentam falhas, equipamentos precisam de manutenção frequente e determinadas mercadorias simplesmente não se adaptam aos sistemas automatizados.
O problema é ainda maior porque muitos centros de distribuição foram construídos décadas atrás e precisam ser modernizados sem interromper suas operações.
Caixas de papelão e perus congelados se transformaram em obstáculos

Um dos maiores desafios da automação está em atividades aparentemente banais.
Retirar produtos de caixas de papelão e separá-los individualmente, por exemplo, é uma tarefa rotineira para funcionários humanos. Para robôs, entretanto, exige sensores, algoritmos e movimentos extremamente precisos.
A Walmart passou anos tentando desenvolver uma solução eficiente antes de adotar pequenos veículos autônomos equipados com sensores de movimento e detecção de obstáculos.
Outro problema surgiu com as embalagens.
As caixas utilizadas pela empresa durante décadas eram grandes demais para determinados equipamentos automatizados. A solução exigiu mudanças no tamanho das embalagens e nos processos de fechamento, aumentando os custos.
Até mesmo alimentos congelados causaram dificuldades.
Durante os preparativos para o Dia de Ação de Graças, braços robóticos tiveram problemas para manipular grandes perus congelados em um depósito da Califórnia.
A empresa precisou solicitar embalagens reforçadas aos fornecedores e recorrer temporariamente a outros centros de distribuição.
Produtos volumosos, como televisores grandes e sacos de ração, continuam exigindo intervenção humana.
Os robôs prometiam economia, mas a conta de energia disparou
A automação também trouxe despesas que nem sempre aparecem nas projeções iniciais.
Segundo informações divulgadas pelo The Wall Street Journal, a conta mensal de eletricidade de alguns depósitos automatizados de alimentos pode ultrapassar US$ 800 mil durante períodos de maior demanda por climatização.
Antes da modernização, instalações com operações predominantemente manuais registravam despesas próximas de US$ 250 mil mensais.
Isso representa um aumento superior a 200%.
Além da energia, a Walmart precisa contratar engenheiros mecânicos, especialistas em eletrônica e técnicos capazes de manter os equipamentos funcionando.
Esses profissionais geralmente recebem salários superiores aos de trabalhadores responsáveis por atividades tradicionais de movimentação de mercadorias.
A empresa também enfrenta falhas nos robôs desenvolvidos pela Symbotic, sua principal parceira tecnológica.
Problemas aparentemente pequenos, como o acúmulo de poeira, podem interromper equipamentos e provocar atrasos em diferentes etapas da operação.
Apesar disso, houve avanços. A proporção de robôs em manutenção, que anteriormente ficava abaixo de 10%, caiu para aproximadamente 5%, segundo a fabricante.
Uma parceria tecnológica que pode transformar 42 centros de distribuição

A Symbotic desempenha um papel central na estratégia da Walmart.
A varejista possui uma participação acionária na companhia de robótica e trabalha com ela na modernização de seus centros de distribuição de produtos não perecíveis.
O plano prevê instalar sistemas automatizados nos 42 depósitos regionais dessa categoria até aproximadamente 2030.
Os equipamentos utilizam estruturas metálicas de grande altura, robôs móveis e braços mecânicos para organizar mercadorias e montar paletes destinados às lojas.
Conforme os documentos apresentados pela Symbotic à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a expansão da parceria anunciada em 2022 acrescentou aproximadamente US$ 6,1 bilhões à carteira de contratos da empresa.
Um dos principais exemplos dessa transformação está em Brooksville, na Flórida.
Nesse depósito, cerca de 80% da movimentação de mercadorias já acontece por meio de sistemas automatizados.
A meta é ampliar essa eficiência para outras instalações, embora determinadas operações continuem dependendo de trabalhadores humanos.
Substituir funcionários não significa eliminar todos os empregos
A Walmart reconhece que a automação reduzirá a necessidade de determinadas atividades manuais, mas afirma que a transformação também criará oportunidades em funções técnicas.
A empresa espera que parte dos trabalhadores passe a supervisionar equipamentos, solucionar problemas e realizar manutenção dos sistemas.
Executivos também argumentam que a elevada rotatividade nos depósitos poderá permitir a redução gradual de postos manuais sem demissões em massa.
Isso, entretanto, não elimina os desafios de qualificação profissional.
A companhia anunciou investimentos em treinamento e programas de desenvolvimento de carreira, incluindo iniciativas para preparar funcionários para funções relacionadas à tecnologia.
Em seu relatório de sustentabilidade de 2026, a Walmart destacou investimentos em educação e capacitação profissional, além da criação de caminhos internos para ocupações com maior demanda.
O desafio será garantir que os trabalhadores consigam acompanhar a velocidade das mudanças tecnológicas.
A corrida contra a Amazon torna a automação ainda mais urgente

A pressão competitiva também explica por que a Walmart continua investindo apesar dos obstáculos.
A Amazon já utiliza sistemas robóticos em larga escala em seus centros logísticos, tornando a automação um elemento importante da disputa pelo comércio eletrônico.
A Walmart tenta acompanhar esse avanço enquanto moderniza uma infraestrutura construída principalmente para abastecer lojas físicas.
Em 8 de outubro de 2026, a companhia inaugurou um novo centro de distribuição automatizado em Stockton, na Califórnia, com capacidade para criar mais de mil empregos.
A instalação utiliza tecnologias capazes de reduzir de 12 para cinco as etapas tradicionais de processamento de pedidos.
Mesmo com esses avanços, a empresa ainda não encontrou uma solução definitiva para automatizar pedidos preparados dentro das próprias lojas.
Depois de investir quase US$ 1 bilhão nessa área desde 2016, a Walmart continua testando alternativas.
A experiência revela uma contradição importante da revolução robótica: automatizar tarefas repetitivas pode parecer simples na teoria, mas o mundo físico apresenta obstáculos difíceis de antecipar.
Para a Walmart, a questão já não é apenas quanto dinheiro será necessário investir, mas quanto tempo levará até que os robôs consigam executar, com confiabilidade e custos competitivos, aquilo que os trabalhadores humanos fazem diariamente.