A resposta curta? Não existe um único motivo. A resposta longa envolve insetos, predadores, camuflagem, comunicação social e até termodinâmica. Entenda como a ciência explica — ou tenta explicar — esse visual nada básico.
Listras que funcionam como repelente natural

No caso das zebras, a coloração não tem nada a ver com camuflagem. Segundo estudos da Universidade de Bristol, as listras pretas e brancas funcionam como um verdadeiro repelente visual contra mutucas, insetos que se alimentam de sangue e podem transmitir doenças graves.
Essas moscas usam a visão — e não o olfato — para encontrar suas vítimas. Quando pesquisadores cobriram cavalos com mantas cinzas, as mutucas pousaram sem problemas. Já com mantas listradas em preto e branco, os insetos simplesmente erravam o alvo e desistiam no último segundo.
A explicação está na péssima resolução visual das mutucas. De longe, tudo parece cinza. Quando se aproximam, o padrão listrado confunde o cérebro do inseto. Resultado: menos picadas e mais chances de sobrevivência.
Preto e branco também pode ser camuflagem

Se zebras não tentam se esconder, pandas fazem exatamente o contrário. O panda-gigante vive em florestas montanhosas do oeste da China, onde neve, rochas escuras e troncos criam um cenário naturalmente manchado.
Segundo Tim Caro, especialista em coloração animal da Universidade de Bristol, a pelagem preta e branca ajuda o panda a se misturar ao ambiente — especialmente quando visto de longe. Para um animal lento e solitário, isso pode fazer toda a diferença.
O truque visual dos pinguins
Pinguins-gentoo seguem outra lógica inteligente. Costas e asas pretas, barriga branca. Essa combinação cria um efeito de camuflagem dupla.
Quando vistos de baixo, a barriga clara se mistura com o céu iluminado. Quando observados de cima, o dorso escuro se confunde com a água profunda. É o que especialistas chamam de “contrassombreamento”, uma estratégia clássica de sobrevivência no ambiente marinho.
Além disso, as penas pretas são ricas em melanina, pigmento que aumenta a resistência ao desgaste causado pelo frio extremo e pela água salgada.
Preto e branco como aviso: “não chegue perto”
Em alguns casos, o contraste serve como alerta. Gambás são o exemplo clássico. Eles liberam uma secreção com cheiro extremamente forte — e potencialmente perigosa — quando se sentem ameaçados.
A coloração preta e branca funciona como um aviso visual claro para predadores: “sou perigoso, pense duas vezes”. Curiosamente, estudos mostram que gambás têm marcas ainda mais contrastantes em regiões com maior presença de predadores.
Comunicação e coesão do grupo
Nem tudo é defesa. Em lêmures-de-cauda-anelada, as listras funcionam como sinalização social. Enquanto caminham em grupo, eles mantêm a cauda erguida, usando o padrão preto e branco como um marcador visual para manter a coesão.
Outros animais também usam marcas claras para comunicação — como manchas brancas atrás das orelhas de tigres, visíveis para outros membros da espécie.
No fim, a resposta não é preto no branco
Além de tudo isso, a coloração pode ajudar na regulação da temperatura corporal. Superfícies escuras absorvem mais calor; superfícies claras refletem mais luz. Alguns animais ajustam sua posição ao sol para equilibrar esse efeito.
Mas a verdade é que a ciência ainda não tem uma explicação única. A coloração preta e branca surge de uma combinação complexa de fatores evolutivos, ambientais e comportamentais.
Como resumiu uma pesquisadora: a ciência raramente oferece respostas preto no branco — trocadilho totalmente intencional.
[Fonte: G1 – Globo]