As redes sociais transformaram os cuidados com a pele em uma verdadeira obsessão entre adolescentes. Vídeos com rotinas de vários passos prometem reduzir poros, eliminar espinhas e produzir a famosa “pele de vidro”.
O problema é que esse padrão dificilmente corresponde à pele humana real.
O dermatologista britânico Jonathan Kentley afirma que imagens excessivamente filtradas ajudam a criar expectativas pouco realistas. Poros, espinhas, manchas, vermelhidão e pequenas cicatrizes são extremamente comuns, especialmente durante a adolescência.
E tentar eliminar cada imperfeição utilizando cada vez mais produtos pode acabar provocando justamente o efeito contrário.
Acne na adolescência é normal e pode ser tratada

As mudanças hormonais da puberdade aumentam a produção de sebo, enquanto células mortas podem bloquear os folículos. Bactérias e inflamação também participam do processo que leva ao aparecimento da acne.
O NHS explica que alterações hormonais durante a puberdade estão entre as principais causas da acne, uma condição extremamente comum entre adolescentes.
A dermatologista Zainab Laftah destaca que tanto meninos quanto meninas podem apresentar essas alterações.
“O acne é muito comum, normal e tratável”, explica.
Um dos ingredientes utilizados no tratamento é o ácido salicílico. Ele ajuda a desobstruir os poros e pode ser encontrado em diferentes concentrações e produtos. A American Academy of Dermatology (AAD) inclui o ácido salicílico entre os tratamentos utilizados contra cravos e espinhas.
Isso não significa, porém, que adolescentes devam combinar vários ativos ao mesmo tempo. O excesso pode ressecar e irritar a pele.
1. Mantenha os cuidados com a pele simples
Para a maioria dos adolescentes, não existe necessidade de montar uma coleção de produtos.
Uma rotina básica pode começar com um limpador facial suave, hidratante adequado ao tipo de pele e proteção solar.
A American Academy of Dermatology recomenda lavar suavemente o rosto e evitar produtos agressivos. A entidade também orienta o uso de protetor solar de amplo espectro, resistente à água e com FPS 30 ou superior.
A lógica é simples: mais produtos não significam necessariamente uma pele melhor.
2. Cuidado com ácidos, retinoides e esfoliação excessiva

Séruns, tônicos, máscaras e diferentes ingredientes ativos aparecem constantemente em vídeos de skincare. O problema começa quando vários deles são utilizados simultaneamente sem necessidade.
Produtos agressivos podem provocar ressecamento e irritação. A própria AAD recomenda evitar adstringentes, alguns tônicos e esfoliantes quando eles irritam a pele.
Kentley afirma ter observado mais adolescentes com dermatite perioral associada a rotinas excessivamente agressivas.
Laftah também alerta para jovens que adotam rotinas desenvolvidas para adultos e combinam numerosos produtos ativos.
A pele não precisa arder ou descamar para que um tratamento esteja funcionando.
3. Sono e alimentação também merecem atenção
A relação entre alimentação e acne é mais complicada do que algumas publicações nas redes sociais fazem parecer.
Existem pesquisas associando dietas de alta carga glicêmica a uma maior ocorrência de acne em algumas pessoas. Entretanto, isso não significa que comer determinado alimento provoque automaticamente uma crise.
A American Academy of Dermatology afirma que alguns estudos encontraram melhora da acne com dietas de baixa carga glicêmica, mas ressalta que outras pesquisas não encontraram a mesma relação e que ainda são necessários mais estudos.
O sono também pode ter influência. A AAD aponta que dormir pouco e passar por períodos de maior estresse podem estar associados à piora da acne em algumas pessoas.
Portanto, não existe uma dieta milagrosa para conseguir uma pele perfeita. Alimentação equilibrada, sono adequado e atenção aos próprios gatilhos são estratégias mais sensatas.
4. Não esprema as espinhas
Pode ser difícil resistir, mas apertar uma espinha aumenta o risco de transformar um problema temporário em uma marca duradoura.
A AAD alerta que espremer ou cutucar a acne pode aumentar o risco de cicatrizes e manchas escuras.
Laftah considera os adesivos hidrocoloides uma das tendências das redes sociais que podem ser úteis em determinados casos.
Eles podem absorver líquido de lesões superficiais e criar uma barreira física que dificulta ficar tocando a região.
5. Saiba quando procurar um dermatologista
Nem toda acne deve ser tratada apenas com produtos vendidos livremente.
Lesões profundas, dolorosas, persistentes ou que deixam cicatrizes merecem avaliação profissional.
Um dermatologista pode identificar o tipo de acne e, quando necessário, utilizar tratamentos mais potentes e medicamentos que exigem prescrição.
E os meninos?
As mudanças hormonais também podem deixar a pele masculina mais oleosa. Além disso, existe outro fator que começa a fazer parte da rotina de muitos adolescentes: o barbear.
Passar a lâmina pode irritar a pele e favorecer problemas nos folículos.
A British Association of Dermatologists explica que a pseudofoliculite, conhecida popularmente como irritação ou “caroços” provocados pela lâmina, acontece quando os pelos ficam presos sob a superfície da pele e provocam inflamação.
Kentley recomenda preparar a pele antes de fazer a barba, utilizar um produto lubrificante e evitar passar repetidamente a lâmina sobre a mesma região.
Também é importante observar a direção de crescimento dos pelos e evitar um barbear excessivamente rente quando existe tendência à irritação.
No fim, os dermatologistas defendem uma abordagem muito menos complicada do que aquela apresentada em muitos vídeos.
A pele adolescente terá poros, espinhas e outras imperfeições. Isso faz parte de uma fase marcada por grandes mudanças hormonais.
Em vez de perseguir uma “pele de vidro” que muitas vezes só existe graças a filtros e edição, uma rotina simples, proteção solar e tratamento dermatológico quando necessário são caminhos muito mais realistas para manter a pele saudável.