Abrir o TikTok para assistir a um único vídeo e perceber muito depois que dezenas passaram pela tela virou uma experiência familiar para milhões de pessoas. Entre adolescentes, esse comportamento está no centro de uma discussão cada vez maior sobre redes sociais. Agora, um acordo firmado nos Estados Unidos coloca novas regras sobre a mesa e pode transformar significativamente a experiência dos usuários mais jovens dentro da plataforma.
Duas horas se transformam em uma nova fronteira para o TikTok
A mudança surgiu de um acordo entre o TikTok e o estado do Alabama, nos Estados Unidos. A plataforma aceitou estabelecer por padrão um limite diário de duas horas para usuários entre 13 e 17 anos, além de implementar outras restrições destinadas aos adolescentes.
O acordo foi anunciado pelo procurador-geral do Alabama, Steve Marshall, poucos dias antes do início previsto de um julgamento contra a empresa. O estado acusava a plataforma de enganar consumidores sobre a segurança oferecida aos menores e questionava características do serviço que, segundo a acusação, poderiam incentivar comportamentos de uso excessivo. O acordo encerra esse caso sem representar admissão de responsabilidade por parte do TikTok.
A companhia também terá de desembolsar US$ 116,2 milhões, dos quais US$ 100 milhões correspondem à reparação prevista no acordo. Dependendo da adesão de outros estados norte-americanos a entendimentos semelhantes, o valor poderá alcançar US$ 300 milhões.
Mas limitar o relógio é apenas uma das mudanças. O pacote tenta interferir em diferentes elementos que ajudam a manter os usuários conectados à plataforma.
A madrugada e até o algoritmo entram nas novas regras

Para adolescentes do Alabama, o TikTok deverá impedir o acesso entre meia-noite e 6h da manhã. As notificações também serão suspensas durante o horário escolar, reduzindo estímulos que poderiam levar os jovens de volta ao aplicativo enquanto estão em aula.
Outro ponto atinge uma das ferramentas mais importantes da plataforma: o sistema de recomendação.
O acordo prevê que adolescentes recebam por padrão um fluxo de conteúdos não personalizado. Isso mexe diretamente com a lógica do feed “Para Você”, que utiliza sinais do comportamento de cada pessoa para escolher vídeos capazes de manter sua atenção.
Também haverá restrições aos filtros estéticos para menores e reforço nos sistemas de verificação de idade. Além disso, determinadas medidas procuram dificultar interações potencialmente problemáticas entre adultos e contas pertencentes a adolescentes.
O objetivo é criar uma experiência diferente daquela oferecida aos adultos, combinando menos personalização com maior participação dos responsáveis.
A mudança também representa uma evolução em relação aos controles que o próprio TikTok já oferecia. Há anos, contas de menores de 18 anos possuem por padrão um limite diário de 60 minutos, embora seja possível continuar utilizando o aplicativo após determinadas etapas. Pais também podem configurar limites personalizados por meio das ferramentas de controle familiar.
O acordo faz parte de uma pressão muito maior sobre as redes sociais
O TikTok está longe de ser a única empresa enfrentando questionamentos sobre o impacto de seus produtos entre crianças e adolescentes.
Nos Estados Unidos, plataformas sociais vêm sendo alvo de processos movidos por estados, famílias e distritos escolares. As acusações incluem desde práticas consideradas capazes de estimular uso compulsivo até falhas na proteção de menores.
A Meta já havia aceitado medidas semelhantes para Instagram e Facebook. Entre elas estão limite diário de duas horas, restrições durante a noite, ausência de notificações no horário escolar e novos controles destinados aos responsáveis.

A empresa chegou inclusive a defender que TikTok e YouTube adotassem padrões equivalentes. Seu argumento é simples: limitar uma plataforma pode ter pouco efeito se adolescentes simplesmente transferirem esse tempo para outra rede social.
O acordo do Alabama, portanto, pode funcionar como algo maior do que uma mudança localizada no TikTok. Ele sinaliza a formação de um possível conjunto de regras comuns para as maiores plataformas utilizadas por adolescentes.
Por enquanto, existe um detalhe que muda completamente o alcance da medida
Apesar das manchetes sugerirem uma transformação generalizada, as novas obrigações anunciadas fazem parte do acordo firmado com o Alabama. Isso significa que elas não representam, neste momento, um limite obrigatório mundial de duas horas para todos os adolescentes que utilizam TikTok.
Ainda existem questões importantes sem resposta, incluindo quando exatamente todas as mudanças entrarão em vigor e como alguns dos mecanismos serão aplicados na prática.
A verificação de idade é um dos desafios. Quanto mais rígida ela se torna, maior é a necessidade de encontrar mecanismos capazes de distinguir adolescentes de adultos sem criar novos problemas relacionados à coleta de informações pessoais.
Ao mesmo tempo, o acordo estabelece um precedente que outros estados podem observar.
Se medidas semelhantes se espalharem, o funcionamento das redes sociais para menores poderá começar a seguir regras muito diferentes daquelas que ajudaram essas plataformas a crescer. A discussão deixaria de girar apenas em torno de quanto tempo um adolescente deveria passar diante da tela.
Ela passaria a envolver algo ainda mais importante: até que ponto uma plataforma deve ser autorizada a usar notificações, algoritmos e personalização para disputar continuamente a atenção de quem ainda não chegou à vida adulta.
[Fonte: TN]