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Ciência

Aquelas linhas brancas deixadas pelos aviões escondem um problema climático e a IA encontrou uma forma de reduzi-lo

Elas parecem desaparecer sem consequências depois da passagem de um avião. Mas algumas podem permanecer por horas e aquecer o planeta. Um experimento com IA encontrou uma possível saída.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quem olha para o céu provavelmente já viu longas linhas brancas surgindo atrás de aviões. Elas parecem inofensivas e muitas desaparecem rapidamente, mas algumas conseguem permanecer na atmosfera e contribuir para o aquecimento global. Agora, Cathay Pacific e Google estão ampliando um experimento que utiliza inteligência artificial para evitar justamente as regiões onde essas trilhas tendem a surgir — e os primeiros resultados chamaram atenção.

Nem toda linha branca deixada por um avião desaparece rapidamente

Aquelas linhas brancas deixadas pelos aviões escondem um problema climático e a IA encontrou uma forma de reduzi-lo
© Pexels

As chamadas trilhas de condensação, ou contrails, surgem quando aeronaves atravessam regiões muito frias e úmidas em grandes altitudes.

O vapor d’água presente nos gases de escape dos motores encontra essas condições e forma pequenos cristais de gelo. O resultado são aquelas linhas brancas facilmente observadas no céu.

Muitas desaparecem em pouco tempo.

Outras, porém, persistem e se espalham, formando estruturas semelhantes a nuvens. É justamente aí que aparece o problema climático.

Essas trilhas persistentes podem reter parte do calor que seria irradiado da Terra para o espaço, contribuindo para o aquecimento da atmosfera. Segundo Cathay Pacific e Google, elas podem representar aproximadamente um terço do impacto climático total da aviação.

Isso não significa que um terço das emissões de CO₂ dos aviões venha dessas linhas. Trata-se de outro efeito climático provocado pela aviação, diferente das emissões diretas de dióxido de carbono.

E existe uma característica particularmente interessante nesse fenômeno: as condições que favorecem sua formação não estão presentes em toda parte.

Há regiões específicas da atmosfera nas quais uma trilha persistente tem muito mais probabilidade de aparecer.

Se um avião pudesse evitá-las, talvez fosse possível reduzir consideravelmente esse impacto.

É justamente isso que a inteligência artificial está tentando fazer.

A solução pode exigir apenas uma pequena mudança durante o voo

Aquelas linhas brancas deixadas pelos aviões escondem um problema climático e a IA encontrou uma forma de reduzi-lo
© Pexels

O sistema desenvolvido pelo Google combina modelos de inteligência artificial, previsões meteorológicas e outros dados para identificar antecipadamente as áreas onde existe maior possibilidade de formação de trilhas persistentes.

Essas informações podem então ajudar os pilotos a ajustar a altitude do avião.

Não é necessário alterar completamente a rota.

Em determinados casos, pequenas mudanças verticais podem ser suficientes para atravessar uma camada atmosférica diferente e evitar as condições responsáveis pela formação da trilha.

A parceria com a Cathay Pacific começou com testes no fim de 2025. Agora, as duas empresas anunciaram uma expansão da iniciativa para estudar sua aplicação em uma variedade maior de operações reais.

E os resultados iniciais ajudam a explicar o interesse.

Em mais de 80 voos analisados, a estratégia conseguiu uma redução estimada de aproximadamente 40% no impacto de aquecimento provocado pelas trilhas de condensação.

A Cathay Pacific também se tornou a primeira companhia aérea comercial da região Ásia-Pacífico a experimentar a tecnologia e a primeira do mundo a testar a estratégia de evitar contrails em voos de ultralonga distância.

Agora vem uma etapa ainda maior.

Os próximos testes vão atravessar a Ásia e o Pacífico

A segunda fase será realizada em uma escala mais ampla e contará também com a participação da organização sem fins lucrativos Contrails.org.

Os experimentos devem incluir voos de ultralonga distância em rotas asiáticas e transpacíficas.

Isso é importante porque grande parte das pesquisas anteriores sobre contrails foi realizada em outras regiões. A Ásia-Pacífico, apesar de representar um mercado gigantesco e crescente para a aviação, ainda aparece menos nos dados experimentais disponíveis.

As condições meteorológicas também variam consideravelmente entre regiões.

Portanto, uma estratégia que funciona em determinados corredores aéreos precisa ser testada em outros ambientes antes de ser aplicada em larga escala.

Há ainda uma questão operacional fundamental: qualquer mudança de altitude precisa respeitar segurança, controle do tráfego aéreo e consumo de combustível.

Evitar uma trilha de condensação não faria sentido climático se o desvio necessário provocasse um aumento desproporcional no gasto de combustível e nas emissões.

É por isso que os testes são tão importantes.

O objetivo não é simplesmente mandar aviões subir ou descer sempre que a IA detectar uma área problemática. A ideia é descobrir quando essas alterações são pequenas o suficiente para oferecer um benefício climático real sem comprometer a operação.

E existe uma vantagem considerável em relação a outras soluções para descarbonizar a aviação.

Não é preciso esperar por uma nova geração de aviões

Reduzir o impacto climático da aviação é particularmente difícil.

Aeronaves permanecem décadas em operação, combustíveis sustentáveis ainda enfrentam limitações de disponibilidade e custo, enquanto tecnologias como aviões elétricos ou movidos a hidrogênio continuam distantes de substituir os grandes jatos comerciais em rotas de longa distância.

A estratégia contra contrails funciona de maneira diferente.

Ela pode, em princípio, ser aplicada aos aviões e combustíveis que já existem hoje, usando previsões mais precisas para modificar determinadas trajetórias.

Isso não resolve o problema das emissões de CO₂ da aviação e tampouco elimina a necessidade de combustíveis mais limpos, aeronaves eficientes e outras medidas.

Mas pode atacar uma parte importante do impacto climático enquanto essas transformações maiores ainda estão em desenvolvimento.

E talvez seja justamente esse o aspecto mais curioso da experiência.

Quando se fala em inteligência artificial e aviação, é fácil imaginar sistemas capazes de pilotar aviões ou substituir tarefas humanas dentro da cabine.

Neste caso, a IA está olhando para algo muito mais discreto: uma faixa invisível de ar frio e úmido alguns metros acima ou abaixo da aeronave.

Evitar essa região pode exigir apenas uma pequena alteração de altitude.

Mas, multiplicada por milhares de voos, uma mudança aparentemente insignificante pode ajudar a apagar do céu uma fonte de aquecimento que durante décadas passou praticamente despercebida pelos passageiros.

[Fonte: Reuters]

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