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Ciência

A 430 metros de profundidade, a Finlândia prepara um destino permanente para seu combustível nuclear usado

O país concedeu a primeira licença de operação do mundo para um depósito definitivo desse material. O início das atividades ainda depende de testes e inspeções.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Produzir eletricidade em uma usina nuclear deixa uma responsabilidade que atravessa gerações: cuidar do combustível usado, que continua radioativo por períodos muito longos. A Finlândia acaba de avançar em sua resposta. Em 22 de outubro, o governo autorizou a operação da instalação da Posiva em Olkiluoto, onde o repositório subterrâneo Onkalo deverá receber esse material a aproximadamente 430 metros de profundidade.

Trata-se da primeira instalação de disposição final de combustível nuclear usado a receber uma licença de operação no mundo. O marco, porém, não significa que o depósito já começou a receber material radioativo.

O que a Finlândia autorizou

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© Pexels

Segundo o comunicado do governo finlandês, a licença permite encapsular e depositar permanentemente combustível usado das usinas de Olkiluoto e Loviisa. A autorização vale até o fim de 2070.

Antes do início das operações, a Autoridade de Segurança Nuclear e Radiológica da Finlândia, conhecida pela sigla STUK, deverá verificar se todas as condições de segurança foram atendidas. A decisão também exige uma avaliação periódica de segurança e uma atualização da justificativa de proteção no longo prazo em até dez anos.

A Posiva informou que ainda precisa concluir o comissionamento, com testes e inspeções sujeitos à verificação do regulador. No anúncio da licença, a empresa não estabeleceu uma data detalhada para começar a operação.

Como o combustível será colocado no subsolo

O processo começa na superfície. Após o armazenamento temporário, os conjuntos de combustível seguem para uma instalação de encapsulamento, onde passam por secagem e entram em recipientes com estrutura interna de ferro fundido e revestimento externo de cobre.

Depois do fechamento e da inspeção das soldas, cada cápsula desce até o repositório. No subsolo, equipamentos a transportam pelos túneis e a colocam em um dos poços perfurados na rocha.

Esses poços têm cerca de 8,5 metros de profundidade. Ao redor das cápsulas, blocos de bentonita formam uma camada de proteção. O trabalho exige precisão: a Posiva descreve equipamentos de instalação de dezenas de toneladas que posicionam os componentes com tolerâncias de poucos milímetros.

Quando um túnel recebe todos os recipientes previstos, ele passa por preenchimento e fechamento. A expansão das galerias ocorrerá gradualmente, conforme o avanço da disposição final.

A segurança depende de várias barreiras

A proposta combina materiais industriais e proteção geológica. Conforme a explicação técnica da Posiva sobre as barreiras do sistema, a contenção envolve o próprio combustível, a cápsula, a bentonita e os materiais usados para preencher os túneis. A rocha funciona como barreira natural.

Essa combinação busca dificultar a liberação e o transporte de substâncias radioativas até o ambiente. A segurança, portanto, depende do desempenho conjunto dessas camadas ao longo do tempo.

O cobre atua como proteção contra a corrosão, enquanto o ferro fundido oferece resistência mecânica. A bentonita, por sua vez, incha em contato com a água e ajuda a limitar sua circulação junto ao recipiente.

Um projeto pensado em escala geológica

Finlandia Nuclear 1
© Forschung und Wissen, KI-Bild

O desafio do combustível usado exige considerar períodos muito superiores à duração de qualquer instalação industrial convencional. Embora sua radioatividade diminua com o tempo, alguns componentes permanecem por centenas de milhares de anos.

Por isso, as análises de segurança do projeto examinam cenários que chegam a aproximadamente um milhão de anos. Esse horizonte serve para avaliar o comportamento das barreiras e possíveis transformações do local, incluindo condições futuras de água subterrânea e mudanças geológicas.

O centro finlandês de pesquisa VTT, que participa do desenvolvimento do sistema, descreve estudos sobre materiais, corrosão, transporte de substâncias radioativas e monitoramento. O trabalho inclui modelagem e testes em escala real, além da preservação do conhecimento técnico entre gerações de profissionais.

O começo de uma operação que pode atravessar um século

A licença resulta de um programa que acumula mais de 40 anos de desenvolvimento. Segundo a Posiva, a fase operacional planejada deverá durar mais de cem anos — período que vai além da validade da autorização atual e exigirá continuidade regulatória.

A experiência também interessa a outros países que estudam repositórios geológicos. Entretanto, aplicar soluções semelhantes exige adaptar o projeto às características da rocha, da água e do combustível de cada local.

Para a Finlândia, o próximo passo é demonstrar que toda essa engenharia está pronta para funcionar em conjunto. A licença abriu o caminho; os testes finais e a fiscalização determinarão quando as primeiras cápsulas poderão seguir para seu destino permanente.

 

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